Oh meu deus, ele me viu nua... foi como se meu corpo inteiro
tivesse ficado vermelho. Eu quis me cobrir inteira, cobrir até a minha alma...
e fazia tanto tempo que ele não me via assim de verdade. Claro, transamos ontem
a noite, mas ele nem tirou a minha blusa.... e na verdade, só arriou a cueca. E
mesmo quando a nudez era completa, não era de verdade. A gente tem o café
diário de manhã, a ligação no almoço, com o roteiro bem ensaiado de perguntas e
respostas, beijo de que bom te ver depois desse dia, o jantar, programas de
teve, beijo de boa noite, sexo semanal. Passeio de fim de semana, comidas
gordurosas, relação gordurosa, abraço gorduroso. Mas ele nunca mais me viu. Ele
sabia dizer quando eu estava irritada, mas não se importava realmente. Nunca me
levava embora quando sabia que eu queria. Não por que não visse, mas porque não
fazia questão em reparar, em olhar.
As conversas são tão chatas, me chateiam e etc., mas nada no
script que seguimos a tanto tempo abre margem pra esse tipo de manifestação...
então eu aproveito a minha deixa e conto da nova secretária idiota do trabalho.
A convivência tornou a sincronia algo banal, pois essa não acontece mais pela convivência,
mas pela convivência.... até mesmo o toque não faz mais nada. É só o toque.
Mas então ele me viu, quase sem querer, saindo do banheiro
sem toalha, e droga, ele me viu completamente nua, eu mesma, acabando de sair
do banho, sem ter me preparado pra ser olhada e não vista por ele. E ele não
esperava me olhar e não teve tempo de se preparar pra não me ver. Então ele me
viu, eu mesma, ele mesmo me olhando, me reparando. E eu senti vergonha, acelerei
o passo para o quarto. E foi isso. Quando eu saí de lá ele me perguntou se a
água estava quente.
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