quinta-feira, 28 de junho de 2012

2001


Assisti no último domingo o filme 2001: uma odisséia no espaço. Posso afirmar que é o filme mais belo que já vi. Além de sua beleza estonteante, ele também causa pensamentos, ideias, reflexões, e acredito que não há melhor maneira de ordená-las do que escrevendo-as.

É possível fazer uma leitura da obra em três níveis. Em primeiro, o filme trata claramente da evolução do homem, tendo como trampolim o aparecimento do monolito. É interessante destacar que o diretor apresenta os aspectos positivos da evolução, como por exemplo ao retratar o progresso do homem ao conquistar o espaço - tecnologia - e na escolha da musica que colore essas cenas, "Danúbio Azul", um clássico universal, evocando os avanços culturais; mas também os negativos, expressos na ponte que se faz entre a arma mais primitiva do homem e a mais sofisticada (um osso e uma ogiva nuclear), e no interessante HAL 9000, que mais do que um personagem muito bem elaborado, é também o ápice do desenvolvimento humano. Através dele, o diretor explora o perigo que o progresso sem contrapontos éticos representa. Kubrick intensifica isso aproximando o espectador do computador, provocando em diversas cenas uma identificação com a máquina, o personagem mais humano, com mais sentimento do filme (remetendo ao conflito de criar um ser e as responsabilidades que isso acarreta que é tratado em Frankenstein, de Mary Shelley).

Outra leitura possível se refere à fé. Por mais darwinista que seja evocar o evolucionismo, não é impossível perceber no filme uma certa conciliação entre criacionismo, evolucionismo e panspermia. Ora, é dito claramente que os monolitos, que desencadearam o processo evolutivo, foram implantados. Isso se abre para diversas possibilidades, que podem, sim, permitir uma interpretação que conclua que as pedras foram colocadas por seres alienígenas em um processo de experimentos com a Terra e os habitantes (ideia reforçada pela dinâmica de "caça ao tesouro" que se desenrola entre um monolito e outro). Mas também não exclui a possibilidade de que um ser superior as tenha instalado ali. Nesse momento, é possível inclusive fazer uma analogia ao monolito com passagens bíblicas: não seria o monolito o "fruto proibido", descrito como o "fruto do conhecimento" em Gênesis?

Isso nos leva ao nível mais profundo de reflexão desse filme, e também às suas cenas mais belas, em que Kubrick trabalha com nossas perpectivas de tempo, como em naves que se movem muito lentamente, mas conforme a camera se aproxima, revelam-se em alta velocidade; e também no envelhecimento vertiginoso do homem que acontece nos minutos finais ; espaço, na interessante cena em que Dave 'caminha' em uma superfície redonda, parecendo estar sempre em subida (ou em uma "roda de rato"); e também com a noção de dentro/fora da mente, que não fica definida na viagem psicodélica de Dave nas cores, paisagens e quarto de hotel que aparecem depois do encontro com o grande monolito. Em todas essas  "brincadeiras", a mensagem é de que a realidade depende do ponto de vista (físico ou ideológico). O diretor utiliza a linha de raciocinio colocada por Nietzsche em Assim falou Zaratustra (basta lembrar  da música que marca os momentos em que há um salto na evolução da humanidade, Also Sprach Zarathustra), trazendo o homem como um meio-caminho na evolução entre o ancestral comum com o macaco e a criança das estrelas. Mas ele costura o filme de maneira tão intrincada (e com um final tão enigmatico) que provoca, invariavelmente, uma estranheza. Essa estranheza gera uma interpretação propria, única e individual do longa, misturando elementos pessoais, como crenças, visões de mundo, experiências de vida, à tudo que foi assistido. Dessa maneira, não existem duas pessoas que tenham assistido ao mesmo 2001, e nem uma mesma pessoa que o tenha assistido duas vezes. É um filme que dependente do espectador, um filme que realmente faz pensar, questionar. Ele o é de maneira intencional, pois a evolução só acontece a partir disso - do livre pensamento. Ao ser um convite ao raciocínio, é também uma intimação à evolução. Definitivamente, não deixe de assisti-lo. E de novo. E de novo...