Assisti no último domingo o filme 2001: uma odisséia
no espaço. Posso afirmar que é o filme mais belo que já vi. Além de sua beleza
estonteante, ele também causa pensamentos, ideias, reflexões, e acredito que
não há melhor maneira de ordená-las do que escrevendo-as.
É possível fazer uma leitura da obra em três níveis.
Em primeiro, o filme trata claramente da evolução do homem, tendo como
trampolim o aparecimento do monolito. É interessante destacar que o diretor
apresenta os aspectos positivos da evolução, como por exemplo ao retratar o
progresso do homem ao conquistar o espaço - tecnologia - e na escolha da musica
que colore essas cenas, "Danúbio Azul", um clássico universal,
evocando os avanços culturais; mas também os negativos, expressos na ponte que se
faz entre a arma mais primitiva do homem e a mais sofisticada (um osso e uma
ogiva nuclear), e no interessante HAL 9000, que mais do que um personagem muito
bem elaborado, é também o ápice do desenvolvimento humano. Através dele, o
diretor explora o perigo que o progresso sem contrapontos éticos representa.
Kubrick intensifica isso aproximando o espectador do computador, provocando em
diversas cenas uma identificação com a máquina, o personagem mais humano, com
mais sentimento do filme (remetendo ao conflito de criar um ser e as
responsabilidades que isso acarreta que é tratado em Frankenstein, de Mary
Shelley).
Outra leitura possível se refere à fé. Por mais
darwinista que seja evocar o evolucionismo, não é impossível perceber no filme
uma certa conciliação entre criacionismo, evolucionismo e panspermia. Ora, é
dito claramente que os monolitos, que desencadearam o processo evolutivo, foram
implantados. Isso se abre para diversas possibilidades, que podem, sim,
permitir uma interpretação que conclua que as pedras foram colocadas por seres
alienígenas em um processo de experimentos com a Terra e os habitantes (ideia
reforçada pela dinâmica de "caça ao tesouro" que se desenrola entre
um monolito e outro). Mas também não exclui a possibilidade de que um ser superior
as tenha instalado ali. Nesse momento, é possível inclusive fazer uma analogia
ao monolito com passagens bíblicas: não seria o monolito o "fruto
proibido", descrito como o "fruto do conhecimento" em Gênesis?
Isso nos leva ao nível mais profundo de reflexão desse
filme, e também às suas cenas mais belas, em que Kubrick trabalha com nossas
perpectivas de tempo, como em naves que se movem muito lentamente, mas
conforme a camera se aproxima, revelam-se em alta velocidade; e também no
envelhecimento vertiginoso do homem que acontece nos minutos finais ; espaço,
na interessante cena em que Dave 'caminha' em uma superfície redonda, parecendo
estar sempre em subida (ou em uma "roda de rato"); e também com a
noção de dentro/fora da mente, que não fica definida na viagem
psicodélica de Dave nas cores, paisagens e quarto de hotel que aparecem depois
do encontro com o grande monolito. Em todas essas "brincadeiras", a mensagem é de que
a realidade depende do ponto de vista (físico ou ideológico). O diretor utiliza
a linha de raciocinio colocada por Nietzsche em Assim falou Zaratustra (basta
lembrar da música que marca os momentos
em que há um salto na evolução da humanidade, Also Sprach
Zarathustra), trazendo o homem como um meio-caminho na evolução entre o
ancestral comum com o macaco e a criança das estrelas. Mas ele costura o filme
de maneira tão intrincada (e com um final tão enigmatico) que provoca,
invariavelmente, uma estranheza. Essa estranheza gera uma interpretação
propria, única e individual do longa, misturando elementos pessoais, como
crenças, visões de mundo, experiências de vida, à tudo que foi assistido. Dessa
maneira, não existem duas pessoas que tenham assistido ao mesmo 2001, e nem uma
mesma pessoa que o tenha assistido duas vezes. É um filme que dependente do
espectador, um filme que realmente faz pensar, questionar. Ele o é de maneira
intencional, pois a evolução só acontece a partir disso - do livre pensamento.
Ao ser um convite ao raciocínio, é também uma intimação à evolução.
Definitivamente, não deixe de assisti-lo. E de novo. E de novo...
