quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

ESPELHO, ESPELHO MEU

Imagem de obra do artista plástico Vik Muniz, 'Narciso after Caravaggio'



A busca incessante pela beleza ideal é traço marcante da nossa sociedade. Almejando um padrão distribuído na mídia, as pessoas tentam se enquadrar a todo custo, perdendo a própria individualidade e colocando em risco, muitas vezes, a própria saúde.
Alta, magra, loira, de olhos claros. Esse padrão europeu invadiu o subconsciente coletivo como símbolo de beleza a ser alcançada. O perfil natural do brasileiro não é esse, dada a miscigenação que é a nossa raça. Temos traços de negros, portugueses e índios. A mulher brasileira é conhecida por suas formas volumosas, seu corpo violão, mas nem isso é uma regra. E todas essas diferenças tornam o povo brasileiro único. Mesmo assim, milhares se tornam escravos de regimes, tratamentos, cosméticos, buscando não seu bem estar ou seu gosto pessoal, mas sim uma ideia implantada em suas mentes de que para ser belo é preciso obedecer a determinadas regras. Nesse processo a saúde fica, muitas vezes, ameaçada.
Transtornos psicológicos como bulimia e anorexia; mortes na mesa de cirurgia; rompimentos de próteses de silicone como as que foram mostradas na mídia nas últimas semanas (não isentando os fabricantes de suas responsabilidades). Tudo isso são frutos dos valores da nossa sociedade, onde a estética é mais importante do que preservar a própria vida. Senão, por qual motivo alguém se submeteria a um procedimento cirúrgico apenas para ter seios maiores ou eliminar gorduras, se expondo a possíveis complicações que acompanham toda cirurgia, por mais simples e segura que seja?
A vaidade não é uma coisa ruim, pelo contrário. Essencialmente, ela reflete o auto cuidado. Quando perde essa função, porém, torna-se nociva. Quando uma pessoa coloca um ideal de beleza a frente de sua saúde é porque dá mais valor ao que a sociedade capitalista espera dela do que a sua vida.
Beleza não tem tamanho, cor, idade. Beleza é um conjunto de características físicas, psicológicas e intelectuais que, em harmonia, compõem o encanto individual e inimitável de cada ser humano. Definir a beleza é limitá-la a algo puramente físico, tal qual fez o personagem Dorian Gray no romance de Oscar Wilde. Encará-la como algo subjetivo é aumentar suas possibilidades e enxergá-la no rosto, no corpo, e também na alma.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

O ÚLTIMO NÚMERO

Certa noite, um homem sonhou com um número. Existem muitas noites, muitos números, muitos homens e, dizem, muitos sonhos. Mas já que decidimos mesmo contar essa história, façamos da melhor maneira possível, dando destaque ao sonho, o mais interessante dos quatro elementos.
Para não dizer que não gostamos de noites, ou de números, ou dos homens, daremos ao leitor um breve relato sobre as principais características de cada um. A noite estava nublada, a temperatura amena e agradável. Havia cheiro de chuva no ar. O homem tinha quarenta anos, era moreno, alto, um pouco acima do peso, professor de matemática. Tinha mulher, filhos e cachorro. O número tinha algarismos. A única coisa que o diferenciava dos demais era sua posição: ele era o último número.
O sonho do homem naquela noite durou poucos minutos, mas parecia muito, muito mais. Essa é uma sensação comum. Ficamos horas seguidas dentro de um mesmo sonho, mas na verdade eles não duram mais do que alguns minutos, ou segundos.
Ele era um sábio. Estava no oriente. O sol estava nascendo. Montanhas cresciam ao seu redor, a uma velocidade que os olhos humanos não conseguem acompanhar. Mas ele conseguia, pois era imortal. Um dos problemas da imortalidade é que ela não dura pra sempre. Ele sabia que um dia ela acabaria e ele morreria, mas não agora. Agora ele era o sábio imortal sentado no meio de um vale meditando e tivera uma revelação: enxergara o último número. Os números servem pra contar coisas, e o último número contava até a última coisa que existia. O último número era parecido com a imortalidade. Algum dia, existiriam mais coisas, e o último número seria outro. Mas ali, naquele instante, ele era imortal, e vira o último número.
Não vai fazer diferença na sua vida se aquela noite era uma segunda, quarta ou sábado. Da mesma forma como o nome do homem e número que ele viu são conhecimentos que, francamente, não importam para o desenrolar da história.
Munido de tal informação, adquirida do fundo de sua mente imortal, ele sentiu-se completo, da forma como todos os homens procuram preencher-se, mas invariavelmente não conseguem, mesmo que achem que consigam. Ele e as coisas – todas as coisas – compartilhavam da mesma essência naquele instante. E tudo transcedia a uma mera contagem, pois o último número guardava em si a exatidão da Criação, a beleza da Evolução; quando viu o último número, o imortal enxergou tudo. Viu que números não são apenas números, que homens não são apenas homens, que o tempo não é só o tempo, que tudo faz parte do Nada para o qual caminha.
Nesse momento, ele acordou. Sentou-se na cama assustado, procurando dentro de si a sensação de plenitude. Colocou a mão no peito, querendo, desesperado, reencontrar o último número. Sabia que estava ali, em algum lugar, ele só não conseguia se lembrar. Nesse momento, uma estrela nasceu, o último número se perdeu para sempre, e ele acreditou que sonhos são apenas sonhos.