quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Não tolere


A recente oficialização do casamento entre um casal barbarense, o reconhecimento da união de cerca de 90 casais no Rio de Janeiro dia 9 de dezembro e a abertura das inscrições para um casamento comunitário homoafetivo em Campinas são notícias animadoras, pois mostram que a sociedade evoluiu no que diz respeito ao fim da discriminação. Contudo, é preciso ficar atento para não adotar uma postura que encara gays e lésbicas de maneira estereotipada e, por isso mesmo, quase tão preconceituosa e ofensiva quanto a homofobia.
O reconhecimento social da homossexualidade não representa nenhum favor ou tolerância. Tão instintiva quanto a heterossexualidade, essa orientação sexual felizmente conquista cada vez mais o respeito da sociedade. Nesse contexto, porém, afirmações como: “todos os gays são muito legais e simpáticos” ou “eu adoraria ter um amigo gay pois eles são mais sinceros” ou até “não tenho nada contra os gays, mas não acho certo ficarem se acariciando em público” são extremamente agressivas. Primeiramente, o caráter ou a simpatia de uma pessoa não estão ligados à sua sexualidade. Atribuir qualidades a uma pessoa só porque ela é homossexual não é um elogio, mas uma contribuição para que se pense cada vez mais nos gays como uma classe (ou casta?) diferente e com características próprias, ignorando que cada ser humano é único.
Afirmar não ter nada contra gays, mas achar errado ou mesmo pecaminoso demonstrações de carinho em público é no mínimo contraditório, e revela que a expressão “tolerância sexual” foi adotada ao pé da letra. Tolerar está mais próximo de “aguentar” do que de “respeitar”. A tolerância não é tão ruim quanto a violência (física ou moral), mas não é nem de longe aquilo que tornará a sociedade melhor.
Em um mundo tão cheio de guerras e atos de violência, cada demonstração de carinho é valiosa, cada ato de amor deve ser preservado.


sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Mata-se o criminoso, e não o crime



Os constantes ataques a policiais e civis causam medo e indignação na população. Uma mostra desse medo foi provada no último dia 12, quando uma suposta ameaça de ataque do PCC (Primeiro Comando da Capital) manteve fechadas portas de estabelecimentos comerciais em Sumaré. A indignação – justificada – faz chover críticas ao sistema carcerário brasileiro, às penas leves, às facilidades de fuga dos presídios e às “saidinhas” em datas especiais, como Natal e Dia das Mães. Esses sentimentos misturam-se no coração dos brasileiros; em resposta, muitos defendem a pena de morte como solução para o problema de segurança pública vigente.
Por definição, o Estado existe para defender os interesses dos cidadãos. Cabe a ele arcar com prejuízos para que a população tenha acesso à água, à saúde e à educação, e também criar leis e aplicá-las, visando manter a ordem social. Quando o Estado, porém, está autorizado a fazer uso da violência, instaura-se um regime ditatorial. Condenar criminosos à pena de morte não está dentro daquilo que é chamado de defesa do povo; agindo assim, todos – criminosos e inocentes – estarão correndo risco de vida, pois o julgamento do Estado é passível de erro. E mesmo que julgue acertadamente, ele estará cometendo uma contradição contra sua própria essência, que é a de proteger, e não de matar.
É fácil afirmar isso quando não se perdeu nenhum parente, amigo ou conhecido para as mãos do crime. É cada vez mais difícil acreditar que existirá um dia em que o sistema penitenciário estará voltado para recuperação dos presos, e que o Estado cumprirá de maneira efetiva sua função primordial de defender a vida, ainda mais quando o medo e a indignação se misturam, dando forma a um senso de justiça que beira a vingança. Mas é preciso acreditar que a vida é inviolável, e que a justiça não se baseia no Código de Hamurabi – que pregava a máxima “olho por olho, dente por dente, carne por carne”. É preciso ter a consciência de que violência não se resolve com balas, mas com ideias aplicadas. Matar um assassino não trará as vítimas de volta e nem tanto acabará com a violência. É possível matar o criminoso, mas não o crime. Este é preciso resolver com medidas reais, compromissadas com a dignidade humana.

domingo, 28 de outubro de 2012

Honestidade não tem tamanho



O ciclista Lance Armstrong foi banido do esporte por fazer uso de doping. O atleta também perdeu muitos prêmios, incluindo o heptacampeonato da Volta da França. As substâncias utilizadas por ele favoreceram-no nas competições, tornando as disputas desiguais. Descoberta a fraude, tudo que ele havia “conseguido” foi considerado fruto dessa trapaça, que não é exclusiva do esporte. É possível encontrar diferentes dopings na sociedade. No ar fica a questão: vale a pena burlar as regras em busca da vitória?
Armstrong não foi o primeiro e (infelizmente) não será o último a fazer uso de substâncias ilícitas para se sobressair dos demais atletas em uma competição. Tentar tirar vantagem, descumprir o regulamento, mentir e dissimular para alcançar um objetivo não são pecados cometidos somente no esporte, mas também na vida. É também um doping colar na prova, prejudicar um colega de empresa para lhe tomar o cargo e se apropriar do dinheiro público para enriquecimento ilícito.
Descoberta as fraudes, o que resta a Armstrong é a vergonha; mas mesmo que o doping tivesse ficado oculto, a vitória nunca seria dele; seria da substância que o fez mais resistente. Da mesma maneira, quando alguém enriquece, ou ganha prestígio, ou apenas cumpre uma obrigação lançando mão de artifícios fraudulentos, conquista apenas a parte material da vitória. O sentimento de superação, a satisfação verdadeira de ter vencido com o próprio suor não existe; ao contrário, o que há é a impressão de que, sozinho, nada teria sido feito. Quem opta pela vantagem desonesta assume sua própria incapacidade.
Numa sociedade em que o lucro é mais importante do que os valores, não é de se estranhar que o doping aconteça, seja em uma competição internacional, uma licitação pública ou em uma prova escolar. Cada situação tem diferentes pesos e importâncias, mas a honestidade cabe bem em qualquer lugar.



domingo, 14 de outubro de 2012

A história e a alegoria

''Era uma vez uma garota que encontrou um dragão. Era um dragão simpático e boa-praça, que começou a acompanhá-la por todos os lugares onde a garota ia. Ele era uma ótima companhia, pois sempre que ela se sentia entediada, podia simplesmente olhar pra ele que ambos caíam na risada. Os dois se tornaram grandes amigos, dividindo confidências e reflexões a respeito da vida, do universo e tudo o mais. Não que as pessoas não percebessem que a garota não desgrudava do dragão (era meio difícil não perceber), mas simplesmente ignoravam, rotulando-a, com seus botões, como uma garota meio esquisitinha. Sabe, tudo bem você gostar de um dragão, mas, por favor, não ande com ele para cima e para baixo se quiser ser respeitada!!
Até que um dia, acabou. O dragão se despediu. Foi lançar fogo em outro condado. Mandou um salve final à garota, que ficou, dali em diante, fascinada com dragões. O que não a impediu de puxar papo com aquele centauro que...''

Tudo bem se você quiser pensar que essa historinha é uma alegoria sobre livros; ou sobre relacionamentos; ou sobre segregação; ou sobre a relação do consciente com o inconsciente. Mas tudo bem também se você achar que é simplesmente sobre uma garota que encontrou um dragão. 

Nada contra alegorias, acho um recurso muito bom na mão de quem sabe usar.
Mas o que eu amo são as histórias.

''Quanto a qualquer significado oculto ou 'mensagem', na intenção do autor estes não existem.
O livro não é nem alegórico e nem se refere a fatos contemporâneos'  (J.R.R. Tolkien)

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Viver e não ter a vergonha de ser feliz



Segundo a sabedoria popular, toda criança passa pela fase do “porquê”. Nessa pergunta exaustivamente repetida, a criança quer saber não apenas o motivo das coisas que acontecem ao seu redor, mas a maneira, o funcionamento e os segredos que tudo parece esconder. O mundo, para os pequenos, é uma caixinha de surpresas. Tudo os fascina e intriga, tudo é um grande mistério.
Um mesmo lugar visto quando se é criança e quando já se é adulto muda de “tamanho”, pois na perspectiva da criança, tudo é enorme. Da mesma maneira, quase todas as crianças acham o máximo ser gente grande, pois quem é mais velho é muito poderoso: poder sair a noite sem os pais, poder brincar em todos os brinquedos do parque, poder ir dormir tarde, poder comer o que quiser, poder trabalhar pra comprar grandes e maravilhosos doces, enfim, é tanto poder que eles mal concebem.
Mas aí elas crescem e passam a escutar os pais, sempre dizendo que é preciso ter responsabilidades. Elas começam a entender que se ficarem brincando ao invés de estudar para a prova terão uma nota ruim. Elas percebem que se comerem todos os doces que queiram não vão almoçar direito e ficarão com fome mais tarde. Elas finalmente entendem que sim, apesar de brincar ser muito legal, elas precisam dormir na hora certa pra poder acordar na hora certa no dia seguinte. Enxergar tudo isso faz bem para as crianças. Uma hora ou outra a vida perde a brilhantina que as atordoava quando pequenas, e isso é bom, pois é de conhecimento de todos que é preciso estar com os pés bem fincados no chão para ter sucesso na vida e ser bem sucedido.
Só não se pode esquecer que as conquistas de adulto devem ser comemoradas com o mesmo espírito infantil. Afinal, todas as obrigações que acompanham a vida adulta não farão nenhum sentido se o amor pelas pequenas coisas for deixando de lado. 

Os diferentes grilhões



A ativista paquistanesa Malala Yousafzai de apenas 14 anos foi baleada dia 11 de outubro. O braço fundamentalista islâmico Taleban assumiu a autoria do ataque e deixou bem claro: a atitude foi uma repreensão à postura de Yousafzai, que defende a educação de meninas.
A jovem recebeu em 2011 o Prêmio Nacional da Paz por sua defesa do direito das garotas de frequentarem a escola, prática considerada ofensiva pelo grupo Taleban. A concepção do Taleban soa ridícula, fruto de um pensamento machista dominante. É condenável a violência cometida contra Yousafzai.
Porém quase tão absurdo quanto não deixar as garotas estudarem é tratar as mulheres como objetos, é alimentar o complexo do príncipe encantado, é fazer delas escravas de um padrão de magreza.
Aqui no Brasil, cada menina tem o direito de frequentar a escola. Mas cada menina também é condicionada a acreditar que existe algum homem especialmente reservado pra ela, e apenas em seus braços ela encontrará a verdadeira felicidade e sua realização como mulher.  Cada menina também cresce recebendo estímulos para respeitar o padrão magreza de beleza, acreditando que ser gorda é algo do qual ela precisa fugir se quiser ser amada pelo tão sonhado príncipe.
A violência contra o sexo feminino não é uma marca exclusiva do fundamentalismo islâmico. A ativista Malala Yousafzai ergueu sua voz para reclamar seu acesso ao conhecimento, mas expresso aqui meu desejo de que as mulheres que já têm acesso a esse precioso bem o utilizem pra se libertar das amarras do machismo, reconhecendo-se como seres completos e independentes.


quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Presidente do Sindicato das Águas fala sobre a greve do setor


Já dura dois meses a greve das chuvas na região da RMC (Região Metropolitana de Campinas). Em entrevista concedida ontem, o presidente do Sindicato das Águas afirmou que a liberação das nuvens para precipitação só ocorrerá depois de um acordo com as autoridades responsáveis pelo consumo consciente da água; ou seja, todos. O sindicato lembrou, ainda, que entre reivindicações está principalmente o investimento por parte do poder público no departamento de distribuição.

Os já costumeiros períodos de seca se agravaram, segundo ele, por conta do descaso geral das autoridades para com a situação da classe das águas. Questionado sobre os problemas que a paralisação causa na vida dos moradores, o sindicato reconheceu que a situação é crítica: prejuízos financeiros são contabilizados e a saúde da população está sendo prejudicada. Em consequência, os hospitais e postos ficam lotados, e, como em efeito dominó, a precariedade do sistema de saúde é escancarada.

Ainda de acordo com o presidente, a greve visa também tornar a população uma aliada do sindicato; ou seja, fazer valer a já disseminada necessidade de preservação da água, que todos conhecem, mas quase ninguém cumpre. Ele não esquece, porém, que é de extrema importância o investimento real no setor; afinal, a água é um bem básico para a vida. O poder público deve estar preparado para suprir essa necessidade, mesmo nos períodos de estiagem.

O presidente do Sindicato das Águas terminou a entrevista dando um panorama nacional sobre a situação da classe trabalhadora. “Se os governos em geral não estão preparados para suprir a necessidade básica da população de beber água, como se pode esperar que estejam aptos a lidar com outras greves, como a dos Correios e dos Bancos?”.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Aprendizagem com alunos

A estudante de História Thays de Macêdo deu início à sua participação no PIBID. Segundo ela, estudantes de licenciatura da PUC-Campinas ministram projetos lúdicos e pedagógicos a alunos de escolas públicas na periferia de Campinas. Além de história, outras disciplinas como literatura, artes, geografia e filosofia também formam suas turmas, que contam, cada uma, com dois universitários cursando a matéria em questão encabeçando os encontros. A turma de Thays é composta por nove estudantes, que têm entre 15 e 17 anos, e estão ali por espontânea vontade, pois a participação no projeto é facultativa.


A atividade proposta pela companheira de Thays, Priscila, era uma discussão a respeito das gerações (dos anos 40 a 50, de 60 a 80 e de 80 até hoje), os conflitos, diferenças e semelhanças. Thays destacou o potencial dos estudantes. De acordo com ela, são alunos interessados, participativos e com grandes capacidades. É preciso, em alguns momentos, incentivá-los a se expressar, mas uma vez iniciada a fala, eles se soltam e surpreendem.

Ao final dessa atividade, houve o chamado “grupão”: reunião com todos os universitários e estudantes das turmas de todas as disciplinas. Os condutores da turma de filosofia aplicaram uma dinâmica em que os alunos deveriam classificar valores como positivos ou negativos; Thays garante que buscou questionar os conceitos dos alunos, fazendo-os se questionarem acerca de cada decisão.
Macêdo também relatou o problema da falta de infra-estrutura na escola. Por um problema de abastecimento, o colégio estava sem água, e com o calor provocado pelos dois meses de estiagem, as crianças que estudam no período sofreram muito com a sede. Segundo Thays, o principal problema é a morosidade e falta de vontade dos funcionários da escola. Do diretor à merendeira, ninguém parecia se importar com a sede das crianças, e nada foi feito para atenuar a situação. Thays e Priscila compraram garrafas de água em um bar próximo e distribuíram aos alunos que estavam participando do PIBID, mas o restante da escola não encontrou a mesma disposição de seus professores e responsáveis.

Para Thays, a questão da falta de água reflete toda uma situação de comodidade que invade o ensino público. Grande parte do problema da educação no Brasil tem raízes nessa postura passiva do professor, que não cobra da diretoria, que por sua vez não cobra do governo as melhorias necessárias (e básicas) para que o ensino funcione. A universitária admite que a falta de incentivos e de estrutura desestimulam o profissional, mas acredita que um professor pode mudar a realidade de seus alunos a partir da sala de aula.

domingo, 16 de setembro de 2012

Nua


Oh meu deus, ele me viu nua... foi como se meu corpo inteiro tivesse ficado vermelho. Eu quis me cobrir inteira, cobrir até a minha alma... e fazia tanto tempo que ele não me via assim de verdade. Claro, transamos ontem a noite, mas ele nem tirou a minha blusa.... e na verdade, só arriou a cueca. E mesmo quando a nudez era completa, não era de verdade. A gente tem o café diário de manhã, a ligação no almoço, com o roteiro bem ensaiado de perguntas e respostas, beijo de que bom te ver depois desse dia, o jantar, programas de teve, beijo de boa noite, sexo semanal. Passeio de fim de semana, comidas gordurosas, relação gordurosa, abraço gorduroso. Mas ele nunca mais me viu. Ele sabia dizer quando eu estava irritada, mas não se importava realmente. Nunca me levava embora quando sabia que eu queria. Não por que não visse, mas porque não fazia questão em reparar, em olhar.
As conversas são tão chatas, me chateiam e etc., mas nada no script que seguimos a tanto tempo abre margem pra esse tipo de manifestação... então eu aproveito a minha deixa e conto da nova secretária idiota do trabalho. A convivência tornou a sincronia algo banal, pois essa não acontece mais pela convivência, mas pela convivência.... até mesmo o toque não faz mais nada. É só o toque.
Mas então ele me viu, quase sem querer, saindo do banheiro sem toalha, e droga, ele me viu completamente nua, eu mesma, acabando de sair do banho, sem ter me preparado pra ser olhada e não vista por ele. E ele não esperava me olhar e não teve tempo de se preparar pra não me ver. Então ele me viu, eu mesma, ele mesmo me olhando, me reparando. E eu senti vergonha, acelerei o passo para o quarto. E foi isso. Quando eu saí de lá ele me perguntou se a água estava quente. 

A Liberdade de acreditar. E de viver.


A morte do embaixador dosEstados Unidos na Líbia e os furiosos protestos em países islâmicos estão enraizados na polêmica de um filme de um cineasta americano. A produção retrata o profeta Maomé de maneira ofensiva e causou a fúria em muitos muçulmanos, que atacaram a embaixada americana na Líbia. 
Segundo o censo de 2010 do IBGE, o número de declarantes católicos no Brasil caiu em relação à pesquisa anterior, mas o número de evangélicos e espíritas subiu, e o de que se declaram sem religião corresponde a 8% (um aumento de apenas 0,7% com relação a dez anos atrás). Logo, é fácil traçar um panorama geral em que se vê um aumento na diversidade religiosa. E esse não é um quadro exclusivo do Brasil; no mundo todo nascem muitas religiões (ou seitas, se preferir), a todo o tempo. Cada uma carrega consigo a missão de explicar o sentido da vida e indicar caminhos para se chegar à plenitude. Com tantas crenças, é não é justo apontar qual é certa e qual é errada. O respeito é o oxigênio que permite a existência das diferenças. E isso, aparentemente, faltou ao cineasta que satirizava o profeta Maomé: ele não usou sua liberdade de expressão; ele feriu a liberdade de crença.
Mas respeitar é diferente de ser conivente com atitudes que ferem a humanidade. Senão, seria justificável o holocausto da Segunda Guerra Mundial, em que milhões de judeus foram mortos segundo uma crença que pregava que isso era a atitude certa, o sacrifício purificante. Para os alemães que comungavam desse pensamento, o repulsivo massacre fazia sentido.
Os ataques às embaixadas americanas e a morte do embaixador dos EUA são condenáveis. Eles não estão lutando pelo respeito à Maomé; estão apenas justificando a violência  através dos dogmas religiosos. Respeito ao diferentes credos é importante. Mas não mais do que o respeito à vida humana.


Punir para preservar a vida


Estados Unidos na Líbia e os furiosos protestos em países islâmicos estão enraizados na polêmica de um filme de um cineasta americano. A produção retrata o profeta Maomé de maneira ofensiva e causou a fúria em muitos muçulmanos, que atacaram a embaixada americana na Líbia.
Atualmente, é necessária a comprovação de 6 decigramas de álcool no sangue para que o motorista seja considerado embriagado. Essa constatação só pode ser feita através do bafômetro ou de exame de sangue. Contudo, ninguém é obrigado a produzir provas contra si mesmo. Logo, se o motorista se recusar a fazer qualquer um dos testes, a justiça estará de mãos atadas para promover qualquer tipo de ação penal contra ele por colocar a vida de outras pessoas em risco. Ou seja, pagar pelo crime de dirigir bêbado é uma decisão do próprio infrator.
Com o novo projeto de lei, o testemunho de policiais ou civis bastará para a comprovação da incapacidade para dirigir. Se o motorista discordar, poderá fazer o teste do bafômetro – nesse caso, como forma de corroborar sua sobriedade.
Recentemente, fiz o curso do CFC (Centro de Formação de Condutores), a fim de tirar a carteira de motorista. Nas aulas foram mostrados alguns vídeos com acidentes de trânsito. O instrutor repetia com frequência os perigos de se dirigir bêbado e a necessidade de guiar com atenção. Porém alguns acidentes são inevitáveis, e desses, grande parte é provocada pelo álcool.
Todo mundo sabe que não pode dirigir bêbado. É o tipo de conscientização exaustivamente veiculada nos meios de comunicação e nos CFC’s. Mas a irresponsabilidade parece não se abalar, e as mortes no trânsito só aumentam. Esse é um sintoma do quanto a vida humana têm perdido o valor. Nesse contexto, o egoísmo, o excesso de confiança e a presunção soam mais fortes do que a necessidade da preservação da vida humana, e não deixa de ser triste que a melhor opção para evitar mais mortes seja ampliar a punição.



A exceção, e não a regra


Em menos de um mês, dois homens sofreram graves acidentes durante o trabalho e saíram ilesos. Eduardo Leite teve o crânio perfurado por um vergalhão no dia 16 de agosto e no último dia 12 Francisco Bento Barroso caiu de uma altura de três metros e teve também um vergalhão atravessando seu pescoço. Felizmente, os dois sobreviveram e não ficaram com sequelas, mas eles são a exceção em casos assim.
Os casos ganharam notoriedade nos noticiários, em que uma simulação do vergalhão cravado no crânio de Leite e a foto de Barroso provocaram comoção pública. O fato de não haver sequelas e as imagens dos homens caminhando e conversando normalmente conferiram notoriedade ao caso. Mas é preciso ter cautela, pois os dois representam a exceção, e não a regra. Acidentes de trabalho muitas vezes provocam a morte dos trabalhadores.
O bem maior de uma empresa são os recursos humanos. Todos os funcionários, de todos os setores, são os responsáveis por fazer com que ela produza bens e gere lucros. Garantir que o ambiente de trabalho seja seguro é essencial, tanto para a operacionalidade quanto pela postura da empresa frente à vida humana.
Na região, há cursos especializados em Segurança do Trabalho. Ou seja, há profissionais da área se formando todo o semestre, e só não investe nisso o empresário que realmente não se importa com seus semelhantes. Em contrapartida, cabe aos funcionários levar a sério os eventos de segurança que a empresa promove, e utilizar os equipamentos de proteção individual.
Trabalhar é muito mais do que ganhar o pão; é conferir à rotina diária a capacidade de produzir. A muitos pode parecer que é recompensa vem apenas no quinto dia útil, mas é inegável que um trabalho bem feito, um resultado positivo, uma meta atingida, ou mesmo um elogio, trazem orgulho pessoal ao funcionário. Afinal, ele é um ser humano, e como tal, sua vida e segurança devem ser preservadas.









domingo, 9 de setembro de 2012

Ideologia, eu quero uma pra viver

O ser humano tem uma necessidade muito forte de acreditar. Adotar uma verdade que faça a vida fazer sentido é uma atitude normal, e é de conhecimento público que as diferentes crenças devem ser respeitadas (mesmo que isso muitas vezes não aconteça). É preciso sim respeitar a verdade do outro, porém sem abandonar o senso crítico.
A crença é fascinante, pois é a única coisa que dá sentido à vida. Mas não se pode ignorar que o nazismo também é uma corrente ideológica, e serviu como propósito de vida a muitos. E que os pilotos Kamikaze da Segunda Guerra também acreditavam que aquilo que estavam fazendo era o certo, segundo os valores ditados pelo caráter do espírito nacionalista que comungavam.
Infelizmente, ideologias que promovem o desrespeito à vida humana não são coisa do passado. Como exemplo é possível citar um carro-bomba explodiu em um mercado no Paquistão e matou mais de dez pessoas no dia 31 de agosto; o local é cenário recorrente de disputas de grupos extremistas. Também é possível lembrar de tribos indígenas no Brasil que matam o primogênito se for uma menina. Para quem está inserido naquele contexto a prática faz sentido, mas nem por isso é algo aceitável.
Para não ferir a soberania nacional e a liberdade de crença, muitos desrespeitos à vida humana simplesmente são encarados como fatores culturais. É necessário que isso pare. Talvez um documento inspirado na Declaração dos Direitos Humanos, mas que seja democrático e reconhecido universalmente possa ser uma solução. Ele deveria estabeleçer as condições mínimas para todo ser humano manter sua dignidade, e qualquer ideologia que o desobedeça deve estar sujeita a sanções. As crenças são ótimas para dar sentido à vida, mas não podem servir como justificativa para atos de violência. Senão, talves seja melhor não tê-las.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

2001


Assisti no último domingo o filme 2001: uma odisséia no espaço. Posso afirmar que é o filme mais belo que já vi. Além de sua beleza estonteante, ele também causa pensamentos, ideias, reflexões, e acredito que não há melhor maneira de ordená-las do que escrevendo-as.

É possível fazer uma leitura da obra em três níveis. Em primeiro, o filme trata claramente da evolução do homem, tendo como trampolim o aparecimento do monolito. É interessante destacar que o diretor apresenta os aspectos positivos da evolução, como por exemplo ao retratar o progresso do homem ao conquistar o espaço - tecnologia - e na escolha da musica que colore essas cenas, "Danúbio Azul", um clássico universal, evocando os avanços culturais; mas também os negativos, expressos na ponte que se faz entre a arma mais primitiva do homem e a mais sofisticada (um osso e uma ogiva nuclear), e no interessante HAL 9000, que mais do que um personagem muito bem elaborado, é também o ápice do desenvolvimento humano. Através dele, o diretor explora o perigo que o progresso sem contrapontos éticos representa. Kubrick intensifica isso aproximando o espectador do computador, provocando em diversas cenas uma identificação com a máquina, o personagem mais humano, com mais sentimento do filme (remetendo ao conflito de criar um ser e as responsabilidades que isso acarreta que é tratado em Frankenstein, de Mary Shelley).

Outra leitura possível se refere à fé. Por mais darwinista que seja evocar o evolucionismo, não é impossível perceber no filme uma certa conciliação entre criacionismo, evolucionismo e panspermia. Ora, é dito claramente que os monolitos, que desencadearam o processo evolutivo, foram implantados. Isso se abre para diversas possibilidades, que podem, sim, permitir uma interpretação que conclua que as pedras foram colocadas por seres alienígenas em um processo de experimentos com a Terra e os habitantes (ideia reforçada pela dinâmica de "caça ao tesouro" que se desenrola entre um monolito e outro). Mas também não exclui a possibilidade de que um ser superior as tenha instalado ali. Nesse momento, é possível inclusive fazer uma analogia ao monolito com passagens bíblicas: não seria o monolito o "fruto proibido", descrito como o "fruto do conhecimento" em Gênesis?

Isso nos leva ao nível mais profundo de reflexão desse filme, e também às suas cenas mais belas, em que Kubrick trabalha com nossas perpectivas de tempo, como em naves que se movem muito lentamente, mas conforme a camera se aproxima, revelam-se em alta velocidade; e também no envelhecimento vertiginoso do homem que acontece nos minutos finais ; espaço, na interessante cena em que Dave 'caminha' em uma superfície redonda, parecendo estar sempre em subida (ou em uma "roda de rato"); e também com a noção de dentro/fora da mente, que não fica definida na viagem psicodélica de Dave nas cores, paisagens e quarto de hotel que aparecem depois do encontro com o grande monolito. Em todas essas  "brincadeiras", a mensagem é de que a realidade depende do ponto de vista (físico ou ideológico). O diretor utiliza a linha de raciocinio colocada por Nietzsche em Assim falou Zaratustra (basta lembrar  da música que marca os momentos em que há um salto na evolução da humanidade, Also Sprach Zarathustra), trazendo o homem como um meio-caminho na evolução entre o ancestral comum com o macaco e a criança das estrelas. Mas ele costura o filme de maneira tão intrincada (e com um final tão enigmatico) que provoca, invariavelmente, uma estranheza. Essa estranheza gera uma interpretação propria, única e individual do longa, misturando elementos pessoais, como crenças, visões de mundo, experiências de vida, à tudo que foi assistido. Dessa maneira, não existem duas pessoas que tenham assistido ao mesmo 2001, e nem uma mesma pessoa que o tenha assistido duas vezes. É um filme que dependente do espectador, um filme que realmente faz pensar, questionar. Ele o é de maneira intencional, pois a evolução só acontece a partir disso - do livre pensamento. Ao ser um convite ao raciocínio, é também uma intimação à evolução. Definitivamente, não deixe de assisti-lo. E de novo. E de novo...


domingo, 13 de maio de 2012

O direito de ir e vir com segurança


O transporte coletivo é uma interessante ferramenta para diminuir a emissão dos gases que provocam o efeito estufa. A ideia de várias pessoas locomovendo-se com um mesmo veículo ao invés de cada uma usando um gera economia ao bolso do consumidor e não deixa de ser uma atitude ecologicamente correta dentro das possibilidades desse mundo movido a petróleo. O problema está na qualidade desse recurso, tão pouco valorizado.
O ideal, talvez, seria a implantação total de biocombustíveis, mas essa é uma mudança que, se de fato ocorrer, será fruto de um processo gradativo. Até lá, o transporte coletivo deveria receber incentivos, o que claramente não acontece. Prova disso são os ônibus em mau estado de conservação, quebrados, fora do horário e perigosamente cheios. Esse último problema além de gerar desconforto aos passageiros, coloca-os em risco de vida. O motorista por vezes não consegue enxergar o trânsito pelo seu lado direito, de tão abarrotado que fica o veículo; muitos viajam em pé, nas escadas, segurando-se nas barras de ferro.  Em uma descida ou freada brusca, não são raras as quedas e acidentes. Se puder escolher, ninguém prefere andar de ônibus.

Já conversei com motoristas que afirmam que novos carros vão chegar às ruas em breve, mas essa é uma questão que não pode esperar. Toda vez que uma pessoa entra em um ônibus superlotado, está pondo sua vida em risco; e isso acontece diariamente. O mais preocupante é que não pode-se atribuir o problema a nenhuma crise regional, já que ele também acontece em outros lugares. Um exemplo fácil é a cidade de São Paulo, com seus ônibus e metrôs sempre lotados.

Nesse cenário, cada um quer o(s) seu(s) próprio(s) carro(s), garantindo mais segurança, conforto e pontualidade. Então nascem os congestionamentos, bolsões de calor e financiamentos infinitos. Criou-se o conceito de que transporte público é para quem não tem outra opção, ao invés de ser uma possibilidade a ser valorizada numa economia sustentável.

É muito mais cômodo para o Estado adotar uma medida paliativa, como um acordo pra tirar as sacolas plásticas de circulação, deixando o prejuízo para os consumidores, do que investir pesado na diminuição efetiva da emissão de gás carbônico. Além do mais, é obrigação do governo garantir transporte de segurança para a população. Se as empresas privadas estão colocando a vida dos cidadãos em risco, o Estado tem o dever de intervir. Antes de respeitar a liberdade do mercado, deve-se pensar na segurança do povo.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

ESPELHO, ESPELHO MEU

Imagem de obra do artista plástico Vik Muniz, 'Narciso after Caravaggio'



A busca incessante pela beleza ideal é traço marcante da nossa sociedade. Almejando um padrão distribuído na mídia, as pessoas tentam se enquadrar a todo custo, perdendo a própria individualidade e colocando em risco, muitas vezes, a própria saúde.
Alta, magra, loira, de olhos claros. Esse padrão europeu invadiu o subconsciente coletivo como símbolo de beleza a ser alcançada. O perfil natural do brasileiro não é esse, dada a miscigenação que é a nossa raça. Temos traços de negros, portugueses e índios. A mulher brasileira é conhecida por suas formas volumosas, seu corpo violão, mas nem isso é uma regra. E todas essas diferenças tornam o povo brasileiro único. Mesmo assim, milhares se tornam escravos de regimes, tratamentos, cosméticos, buscando não seu bem estar ou seu gosto pessoal, mas sim uma ideia implantada em suas mentes de que para ser belo é preciso obedecer a determinadas regras. Nesse processo a saúde fica, muitas vezes, ameaçada.
Transtornos psicológicos como bulimia e anorexia; mortes na mesa de cirurgia; rompimentos de próteses de silicone como as que foram mostradas na mídia nas últimas semanas (não isentando os fabricantes de suas responsabilidades). Tudo isso são frutos dos valores da nossa sociedade, onde a estética é mais importante do que preservar a própria vida. Senão, por qual motivo alguém se submeteria a um procedimento cirúrgico apenas para ter seios maiores ou eliminar gorduras, se expondo a possíveis complicações que acompanham toda cirurgia, por mais simples e segura que seja?
A vaidade não é uma coisa ruim, pelo contrário. Essencialmente, ela reflete o auto cuidado. Quando perde essa função, porém, torna-se nociva. Quando uma pessoa coloca um ideal de beleza a frente de sua saúde é porque dá mais valor ao que a sociedade capitalista espera dela do que a sua vida.
Beleza não tem tamanho, cor, idade. Beleza é um conjunto de características físicas, psicológicas e intelectuais que, em harmonia, compõem o encanto individual e inimitável de cada ser humano. Definir a beleza é limitá-la a algo puramente físico, tal qual fez o personagem Dorian Gray no romance de Oscar Wilde. Encará-la como algo subjetivo é aumentar suas possibilidades e enxergá-la no rosto, no corpo, e também na alma.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

O ÚLTIMO NÚMERO

Certa noite, um homem sonhou com um número. Existem muitas noites, muitos números, muitos homens e, dizem, muitos sonhos. Mas já que decidimos mesmo contar essa história, façamos da melhor maneira possível, dando destaque ao sonho, o mais interessante dos quatro elementos.
Para não dizer que não gostamos de noites, ou de números, ou dos homens, daremos ao leitor um breve relato sobre as principais características de cada um. A noite estava nublada, a temperatura amena e agradável. Havia cheiro de chuva no ar. O homem tinha quarenta anos, era moreno, alto, um pouco acima do peso, professor de matemática. Tinha mulher, filhos e cachorro. O número tinha algarismos. A única coisa que o diferenciava dos demais era sua posição: ele era o último número.
O sonho do homem naquela noite durou poucos minutos, mas parecia muito, muito mais. Essa é uma sensação comum. Ficamos horas seguidas dentro de um mesmo sonho, mas na verdade eles não duram mais do que alguns minutos, ou segundos.
Ele era um sábio. Estava no oriente. O sol estava nascendo. Montanhas cresciam ao seu redor, a uma velocidade que os olhos humanos não conseguem acompanhar. Mas ele conseguia, pois era imortal. Um dos problemas da imortalidade é que ela não dura pra sempre. Ele sabia que um dia ela acabaria e ele morreria, mas não agora. Agora ele era o sábio imortal sentado no meio de um vale meditando e tivera uma revelação: enxergara o último número. Os números servem pra contar coisas, e o último número contava até a última coisa que existia. O último número era parecido com a imortalidade. Algum dia, existiriam mais coisas, e o último número seria outro. Mas ali, naquele instante, ele era imortal, e vira o último número.
Não vai fazer diferença na sua vida se aquela noite era uma segunda, quarta ou sábado. Da mesma forma como o nome do homem e número que ele viu são conhecimentos que, francamente, não importam para o desenrolar da história.
Munido de tal informação, adquirida do fundo de sua mente imortal, ele sentiu-se completo, da forma como todos os homens procuram preencher-se, mas invariavelmente não conseguem, mesmo que achem que consigam. Ele e as coisas – todas as coisas – compartilhavam da mesma essência naquele instante. E tudo transcedia a uma mera contagem, pois o último número guardava em si a exatidão da Criação, a beleza da Evolução; quando viu o último número, o imortal enxergou tudo. Viu que números não são apenas números, que homens não são apenas homens, que o tempo não é só o tempo, que tudo faz parte do Nada para o qual caminha.
Nesse momento, ele acordou. Sentou-se na cama assustado, procurando dentro de si a sensação de plenitude. Colocou a mão no peito, querendo, desesperado, reencontrar o último número. Sabia que estava ali, em algum lugar, ele só não conseguia se lembrar. Nesse momento, uma estrela nasceu, o último número se perdeu para sempre, e ele acreditou que sonhos são apenas sonhos.