
Esse livro de Jhon Harding é um verdadeiro quebra-cabeça. Começa de maneira leve, suave e delicada, mostrando o percurso de Florence, a narradora, por entre as descobertas no mundo da literatura. Mas, aos poucos, a história vai ganhando densidade e poder de atração.
Tudo se desenvolve em 1891, na Nova Inglaterra. A princípio, conhecemos uma menina sem muitas perspectivas na vida, além de um confinamento ao analfabetismo (por ordem de seu ausente tio), as brincadeiras com seu querido irmão e os cuidados dos criados da residência decadente onde vive. Gradualmente, ela aprende a ler sozinha, descobre grandes obras da literatura na biblioteca da casa e seu horizonte se amplia. Passa também a um flerte com seu asmático vizinho e vê seu pequeno irmão, Giles, ir para um colégio interno. A primeira parte do livro trata basicamente dessa trama, nos apresentando as personagens sob o ponto de vista de Florence.
A última parte tem início com a chegada da segunda preceptora de seu irmão (a primeira morrera afogada em um lago, em circunstâncias que não ficam claras no livro), Srta. Taylor. Enquanto Giles se apega cada vez mais a preceptora, Florence está certa de que ela é um fantasma e está ali pra roubar seu maior tesouro: seu irmão.
A história amadurece quando se volta para o estilo gótico e envolve o leitor na trama de maneira que ele não sabe o que é realidade e o que é imaginação, o que é loucura e o que é sobrenatural. Tudo isso converge para um final surpreendente, onde as questões em aberto são respondidas subjetivamente, dando margem a diversas interpretações. Além disso, há a incrível fluidez com que as palavras passam diante dos olhos cada vez mais curiosos e aflitos de quem está lendo a história.
Oscilando entre o doce e o grotesco, a inteligência e a insanidade, Harding acerta em cheio na trama da menina que, aparentemente, sabia ler.
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