terça-feira, 7 de junho de 2011

MUROS

- Eu nunca fui dessas ladras de supermercado, banco, bate-carteira; eu nasci num bom lugar, fui bem criada, tive um ótima educação. Eu tenho, digamos, um certo talento com máquinas, aparelhos eletrônicos e... alarmes. Foi assim que consegui cometer tantos roubos bem sucedidos. Qualquer sistema de segurança, eu sempre invadi com facilidade, entende? O mundo do crime, depois que eu o experimentei uma vez, me viciou. Não há nada como a adrenalina do risco de ser pego. O dinheiro é um adicional muito bem vindo, mas invadir sistemas, desativar alarmes, abrir cofres... Esse é o meu barato. Você roubava pois é viciada em heroína, eu por que sou viciada em perigo.
Marta, a ouvinte, achava a loirinha na sua frente cada vez mais mimada.
- Moro, ou morava, melhor dizendo, num bairro muito rico; você não acreditaria nas casas que eu já arrombei! Lindas e grandes, com seus donos presunçosos me paquerando toda a manhã, quando eu saia pra pegar correspondências, enquanto suas esposas viciadas em cartões de crédito fingiam não ver. Tudo muito bonito por fora, mas extremamente sujo por debaixo do tapete. Durante a noite, enquanto eles saíam com seus filhos bem cuidados pra jantar num restaurante chique, eu fazia minhas incursões por suas casas. Jóias, quadros, vestidos, louças caras, perfumes, tudo me atría bem menos do que a adrenalina de ser pega. E isso quase aconteceu várias vezes, mas eu sempre conseguia me safar. Até que um dia...
A casa tinha que se manter às escuras, pra não despertar desconfianças nos outros vizinhos. Eram quase quatro horas da madrugada, e Lúcia estava longe de dormir. Precisava terminar aquela casa em menos de meia hora, pois a gambiarra que conseguira fazer para desligar o alarme não duraria mais do que isso. Logo a luz verde teria que ser reativada, senão a central de segurança perceberia algo errado.
Em sua mochila, guardara uma bolsa Chanel, um Jhonnie Walker, alguns garfos de prata e uma caixinha de música que entoava Lago dos Cisnes. Estava decidida a ir embora, satisfeita, quando seus olhos relancearam até um quadro na parede: surrealismo. Ela adorava a escola, e mesmo depois de analisar o quadro e classificá-lo como nada de preço extraordinário, decidiu levá-lo. Iria colocá-lo em seu porão, onde guardava seus ''segredos''. Já tinha até o espaço adequado pra ele: bem em frente à sua cadeira de couro (comprada), acima dos pequenos elefantes indianos que ficavam sob a lareira (roubados).
Iniciou o processo de tirá-lo da moldura, sabendo que contava com menos de vinte minutos. Mostrava uma moça chorando, com os cabelos esvoaçantes, e folhas douradas a cairem do céu; e dos olhos da moça, se podia ver um casal no meio de uma tempestade, sendo açoitados pelo vento; e, se a imaginação permitisse, uma tarde de sol, num parque, cujo horizonte se formava a partir dos cabelos revoltos da garota, e as folhas se transformavam em borboletas subindo ao céu, assustadas pelo que poderia tanto serem os dentes, quanto garotos jogando pedras. Era relativamente pequeno, mas sua intensidade a fazia vê-lo muito maior; a loucura que emanava dali preenchia-a, completava-a. Era mais do que um quadro, era um espelho.
Quando conseguiu retirá-lo da moldura e tê-lo em suas mãos, dirigiu-se à porta, que ficava no vestíbulo ao lado da sala de estar de onde pegara o quadro, e viu que a luz do alarme, que até então julgava desligado, estava verde. O medo fluiu em suas veias, atacando-a com a agradável sensação de pânico que a fazia sentir-se viva de verdade. Tomou consciência de cada pedaço de seu corpo, todo alerta, excitado. Não sabia a quanto tempo o alarme se ligara automaticamente, e nem a quanto tempo a central de segurança ficava dali, mas sabia que a essa altura eles já estavam informados que o alarme da casa havia se desligado por certo tempo, e que não fora inserido código nenhum de desativação. Ou seja: invasão.
Saiu pela porta, sem se importar com o aviso que dispararia na central de segurança ao abri-la com o alarme ligado. Nem se deu ao trabalho de tentar hibernar o alarme novamente. Precisava sair dali, rápido.
Para seu completo desespero, viu uma luz vermelha de sirene refletir-se no quintal. Eles já estavam ali, e com a polícia. Não estava surpresa, andava sendo muito procurada ultimamente, sua rotina de trabalho andava intensa. Em todo o bairro, assaltara mais de dez residências em uma semana. Estava se tornando famosa.
Como não queria que sua fama atingisse o patamar de estampar seu rosto de traços fortes nas páginas policiais do jornal da cidade, fugiu rapidamente para os fundos da casa, seguindo seus instintos, apurados ao mais elevado grau quando se sentia assim, encurralada como um bicho numa caçada. Tornava-se então pouco racional, e seguia a voz que lhe guiava silenciosa e certeiramente. Sua audição ficava mais perceptiva do que qualquer outro sentido, e ela conseguia ouvir que havia muita, muita gente na frente da casa (inimigos), mas que seu comparsa levara o carro até atrás da residência, onde a esperava agora, com o motor roncando baixo, porém forte, constante. Sim, aquele barulho era o som que seguia, o som da fuga por entre as veias da cidade, que se misturavam em sua cabeça, confusa por causa do excesso de adrenalina em suas células, com as próprias veias de seu corpo.
Chegando ao fundo da casa, viu que este consistia numa pequena área verde que, se bem cuidada, daria um belo jardim. O mato, porém chegava até suas canelas, ocultas por sapatos pretos e silenciosos tal qual pés alados. Adiante, estava seu amigo, amante, cúmplice, esperando-a dentro do carro. Podia jurar ouvi-lo resmungar para que andasse logo. Entre ela e a liberdade havia apenas uma coisa: o muro.
Ajeitou a mochila nas costas, e tentou se lembrar por onde começava. Primeiro, tinha que encontrar um ponto de apoio para impulsionar o corpo por cima do muro, que nem era tão alto, e então pular do outro lado. Simples, rápido, fácil. "Não, não será fácil", pensou ela. Era inteligente, chamada de ''nerd da informática" por uma garota boba com quem estudara. Entendia tudo de circuitos, eletricidade, eletrônica, mecânica. Desmontava e montava um relógio no colegial, desenhara seu primeiro motor antes mesmo de começar o curso de mecânica. Porém, nada que envolvesse força física lhe caía bem.
"Vamos, é só um muro, qualquer garotinho consegue fazer isso", repreendia-se. Não sabia onde apoiar os pés, pra começar, então simplesmente deu um salto e se agarrou no alto do muro. Seus braços frágeis não aguentaram seu peso, e um segundo depois estava esborrachada no chão, com alguns arranhões incômodos. "Tudo bem, isso não funcionou". Vasculhou então o quintal escuro rapidamente com os olhos, procurando por alguma coisa em que pudesse subir. Ao cabo de alguns instantes tensos, onde seu cérebro parecia não colaborar, viu um balde. Parecia fraco, mas calculou que devia aguentá-la.
Subiu nele, e viu que quase ficava da altura onde seus braços alcançariam a borda do muro. Só precisou dar um pequeno pulo, e logo agarrou-se novamente, ficando pendurada. Se caísse, seria em cima do balde.
Usou toda sua força de vontade, todo seu potencial, e canalizou-os para seus músculos dos braços. Agradeceu mentalmente por não ter roubado nada muito pesado essa noite. Conseguiu apoiar sua barriga no muro, o que lhe causou uma dor enorme. Seus braços e seu tronco ficaram pendurados do lado de fora, enquanto suas pernas ainda estavam do lado de dentro. Todo seu apoio estava, praticamente, no estômago. E ela não sabia mais o que fazer. Viu que Flávio estava impaciente no carro. Soltou um pedido de ajuda mudo, pois não aguentava sequer falar, de tanta dor. Estava simplesmente travada. Sua mente não funcionava, seus instintos a haviam abandonado. Sentia-se um bebê que não tinha domínio sobre o próprio corpo. Odiou Flávio por ficar ali, sentado no banco do motorista, e não ir ajudá-la. Esperou quase que ele buzinasse, como a dizer "vamos, vamos, não tenho todo o tempo do mundo", do mesmo jeito que os namorados fazem com as namoradas que demoram a se arrumar. "Que diabos, a gente tá nessa juntos ou não, porra?Vai ficar aí me olhando me matar aqui nesse muro?", sentiu vontade de falar. Mas simplesmente não conseguiu. Ao invés disso, segurou-se com muita força, tentando ignorar a dor que sentia, e subiu suas pernas. A fonte da dor parou, pois agora seu corpo todo estava em cima do muro, mas sua situação ainda era crítica. Olhando de cima, a calçada parecia muito, muito distante. Não que sentisse medo, antes fosse, pois conhecia o medo, entendia-o. Não se importaria de cair, se machucar. Apenas não sabia como descer dali. Se soubesse, poderia quebrar os dois braços, que o faria. Mas simplesmente estava paralisada, impotente.
Flávio viu pessoas passando na rua. Não entendia por que Lúcia demorava tanto a descer. Não entendia por que ela estava deitada no muro. Não entendia o olhar que lhe lançava. Não entendia que simplesmente devia ir lá ajudá-la. Mas entendeu muito bem quando viu um carro da polícia aparecendo, e entendeu que o melhor a fazer para salvar sua própria pele seria pisar no acelerador e arrancar.
A irritação - muito mais do que o desespero - tomou conta de Lúcia. Seu namorado idiota fora embora, lhe deixara ali, e a polícia estava gritando com ela. Imaginava se estavam tendo uma bela visão de sua bunda erguida para o alto. Eles pediam que ela descesse, o que quase a fez gritar. Se ela soubesse como fazer isso, já estaria longe dali. Respirou fundo, aceitou o fato que não sabia realmente como descer sozinha, e pediu ao policial que tentava "negociar" sua rendição se aproximasse.
- Eu... preciso de ajuda pra descer.
A essa altura, a rua estava tomada por curiosos. Lúcia, a bela moça que saía todas as manhãs pra correr com seu cachorro, os fazia admirarem-se de modo escandaloso - como só os vizinhos conseguem - com a descoberta de que ela era a ladra que andava assaltando as residências daquele bairro tão distinto.
O policial riu da situação da moça.
- Fala sério? Você não consegue pular o muro?
Vermelha, ela nem respondeu. Ele segurou em sua cintura, puxou-a para si, e colocou-a de pé.
- Você está presa em flagrante por roubo, atleta.

- E foi assim que eu fui presa, e virei uma piada.
Lúcia diria que aquelas primeiras semanas que passara na cadeia haviam sido o inferno, se acreditasse nele. Sua vida até então cercada por riqueza, festas, aventuras noturnas e luxúria se transformara no pior dos pesadelos. O lugar era sujo, superlotado, fedido, e emanava a abusos sexuais; nenhum homem com quem dormira fora tão ávido quanto qualquer uma daquelas mulheres enjauladas, carentes e à beira da insanidade. Não sabia o que era pior em suas colegas de cela: a abstinência de drogas, que as tornava loucas, ou a abstinência de homens, que as tornava loucas e famintas.
Marta era até gente boa com ela. A escutava, contava algumas coisas sobre o "sistema", e era carinhosa. Claro que pedia favores em troca, mas isso não era algo exclusivo da prisão; Lúcia sabia que era uma prática comum no mundo todo, em todas as relações, comerciais ou emocionais. Ali era apenas mais claro, transparente.
Eram em três em sua cela; além de Marta, Paola, uma negra de aparência erroneamente frágil, também dividia o espaço apertado. Viviam pacificamente, dentro dos limites humanamente possíveis. Paola era companheira de Marta, mas procurava esconder o ciúme quando via a namorada com a nova prisioneira. Sua animosidade, porém, era visível sob a gentileza forçada. Quando Lúcia perguntou a Marta como deveria se comportar com relação a Paola, essa respondeu simplesmente:
- Respeite quando eu e ela estamos juntas. Apenas isso.
Flávio fora visitá-la uma vez, logo na primeira semana. A reação agressiva ("animal", como ele definiu mentalmente) de Lúcia afastara-o por completo. Eventualmente ela recebia a visita de umas poucas amigas fiéis e temerosas; seu pai era o único que ia vê-la toda a semana. Parecia ter envelhecido dez anos nos dias que se seguiram à descoberta da vida que a filha levava, e pareciam ser mais dez a cada visita à prisão. Definhava a olhos vistos. Nem a perda precoce da mãe de Lúcia abalara-o tanto. A garota enternecia-se dele, mas sabia que não havia nada que pudesse fazer para ajudá-lo. Ela era quem mais precisava de ajuda naquele momento.
Uma noite depois do dia de visitas, Marta acordou-a, colocando a mão em sua perna e apertando, como era seu costume. Sonolenta, mas ciente do que a amiga queria, Lúcia colocou a mão em sua nuca. Marta, porém, afastou-a, e sussurrou em seu ouvido:
- Quer fugir?
Lúcia sentiu a familiar sensação de todos os pêlos do seu corpo se eriçando. Sim, seu coração respondeu. Se fosse pra morrer naquele lugar, que pudesse ao menos sentir novamente toda a emoção, toda a adrenalina do perigo.
- Quero.
Muito mais do que a liberdade, ansiava por se sentir viva de novo, sair daquele marasmo que sua vida aventureira de repente se tornara.
- Muito bem, então levanta e me segue. Minha irmã me trouxe uma arma e conseguiu fazer uma cópia da chave do cadeado da nossa cela; vem atrás de mim, e não faz nenhuma besteira.
Obediente, Lúcia empreendeu pela primeira vez uma fuga seguindo outra pessoa; dessa vez, não estava no comando. Era desconfortável, mas era muito mais do que já tivera desde que fôra pega.
Paola já estava acordada. Parecia mais descontente do que de costume com a presença de Lúcia. Claramente, sua ideia era fugir com Marta e largar a outra, a que se intrometera em sua relação, com a cela inteirinha para si.
Milagrosamente, a chave que a irmã de Marta trouxera abriu a cela.
- Agora anda, você que manja de sistemas de segurança, pode dar um jeito nisso?
Marta indicou uma câmera que vigiava o corredor. Lúcia entendeu o que tinha que fazer. Primeiro, precisava de sorte: as câmeras faziam parte de um rodízio na televisão da guarda responsável. Os corredores não eram vistos todos ao mesmo tempo, tinha certeza. Só precisava mexer na câmera quando ninguém estivesse olhando.
Marta olhava-a, esperando para ver as maravilhas que ela tanto se vangloriava de saber fazer. Viu a garota respirar fundo, e rezou pra que não fizesse nenhuma besteira, senão teria que ficar mais cinco anos naquele lugar. Estava tudo nas lindas e talentosas mãos de sua nova namoradinha. Talvez, lá fora, até trocasse Paola definitivamente pra ficar com a loirinha mimada, se essa conseguisse dar um jeito na câmera. Mas só talvez.
Sob o olhar atento de todas as presas naquele corredor, Lúcia fez a coisa mais imprudente em toda sua vida de criminosa: saiu da cela (e seu corpo todo entrou ficou tenso quando fez isso, pois sabia do risco que estava correndo se justamente essa câmera estivesse na televisão da guarda) carregando uma camiseta preta um banquinho; subiu nele e chegou seu rosto perto da câmera. Colocou o pano preto em cima e disse à Marta:
- Tudo liberado.
Explodindo com a estupidez da garota, Marta gritou, ou teria gritado, se não estivesse no meio de uma fuga:
- Você tá louca? Não consegue desligar o sistema, paralisar as câmeras, o caralho à quatro?
- Conseguir eu consigo, mas estamos com pressa, e até a guarda descobrir que isso é um pano, e não um defeito na câmera, a gente já conseguiu escapar.
Marta, contrafeita, sorriu com o canto da boca: a menina era prática. Agora, precisavam fugir. Rapidamente abriu as outras celas do corredor com a chave mestra que sua irmã conseguira, e logo havia um aglomerado de cerca de dezoito mulheres prontas para a liberdade.
Claramente, quem comandava a operação era Marta. Ela seguia na frente, averiguando se estava tudo seguro. Foi surpreendida por uma guarda na bifurcação do seu corredor, e sem hesitar meteu-lhe um tiro na testa, derrubando-a instantaneamente. As presas passaram pelo corpo inerte sem ao menos pestanejar. Lúcia não foi diferente. O pensamento mais próximo de piedade que teve foi ao constatar quanto sangue saía da cabeça da mulher, era realmente impressionante, para uma arma tão pequena.
Seguiram em frente, silenciosas e ofegantes. Marta sempre na vanguarda, matando qualquer guarda que aparecesse pelo caminho. Recarregou a arma mais três vezes até chegarem na lavanderia, por onde sairiam. O silenciador da arma as levara até ali sem serem percebidas, agora faltava chegarem ao lado de fora do prédio, então saria cada uma por si.
A "comandante" foi a passos trôpegos até a porta da lavanderia, apenas para constatar que estava trancada. Marta então ergueu a arma, pronta a dar uma coronhada na fechadura, quando todas ouviram:
- Paradas, senão eu atiro.
Uma maldita guarda estava apontando uma arma pra cabeça de Marta. As fugitivas estavam em vantagem numérica, mas não ousariam se mexer e arriscar o pescoço de sua líder e os seus próprios. Estavam encurraladas, acabara. A guarda estava puxando o walkie tock do bolso, para pedir reforços, quando Lúcia sentiu um frenesi ao sofrer um surto de adrenalina em sua corrente sanguínea. Ah, como ela gostava daquilo!
Chutou com força a arma na mão da guarda. Essa disparou e acertou no teto, fazendo um barulho ensurdecedor. Lúcia deu-lhe um soco no rosto, com força quase sobrenatural, derrubando-a.
Sem pensar duas vezes, Marta arrombou a porta e correu para fora, sendo seguida por dezesseis prisioneiras estupefatas e uma novata que parecia correr mais do que todo mundo. Atravessaram o pátio entre a porta e o grande paredão que as separava da rodovia sentindo o vento no rosto com uma intensidade que nunca haviam sentido na vida.
Uma a uma, as prisioneiras escalavam o paredão, pulavam com destreza a cerca elétrica e se jogavam de qualquer jeito do outro lado. Todas já estavam do outro lado, menos Marta e Lúcia, que travavam uma batalha:
- Vai logo, branquela, eu faço pézinho.
- Eu não consigo, eu não consigo... - repetia Lúcia.
- Anda logo, as guardas vão aparecer, pegar a gente!
- Vai, pode ir, Marta, eu não vou conseguir... - flashes da noite em que fôra presa relampejavam em sua mente, ameaçando enlouquecê-la. Não conseguia, simplesmente não conseguia.
A companheira fazia uma concha com as mãos, convidando Lúcia a subir. Convidando é eufemismo, ela ordenava, com sua voz autoritária:
- Anda-logo-anda-logo-anda-logo-anda-logo-anda-logo-ANDA-LOGO!- por um breve segundo, Lúcia apreceu decidir-se por subir, mas as guardas apareceram. Marta lançou um último olhar à garota, e subiu com facilidade o muro chapiscado, desviando-se dos tiros que tentanvam alvejá-la.
- Parada aí, senão atiramos!
Como se Lúcia pudesse ir a algum lugar. Apenas encostou a testa no concreto à sua frente, deixou cair uma lágrima e olhou para cima. O muro era muito alto.

Nenhum comentário: