quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

INVASÃO DA INVENÇÃO

Há muito tempo atrás houve uma invasão. Muito mais sutil do que a dos bárbaros, e muito mais terrível também.
A Terra sofreu uma invasão alienígena.
Eles, os ET's, observavam o nosso planeta já a algum tempo, e viram que os homens organizavam suas atividades - levantar, trabalhar, comer, se divertir, dormir - através dos ritmos da natureza, levando em conta o nascer e o pôr-do-sol, os períodos de chuva e estiagem, os movimentos da Lua.
Esses alienígenas tinham, como todo alienígena que se preze, tecnologia superdesenvolvida, e a princípio acharam graça em como os homens sujeitavam-se a coisas tão rústicas e nem sempre estáveis. Calcularam, então, que seria interessante brincar com os habitantes daquele pequeno planeta azul, presenteando-os com um de seus inventos mais banais.
Ao contrário dos lombardos, visigodos e anglo-saxões, ninguém percebeu quando essa tecnologia foi discretamente introduzida aqui. Pareceu a todos que fôra um objeto inventado num momento de inspiração, um incrível aperfeiçoamento dos protótipos já existentes. Ninguém percebeu que os mecanismos envolvidos ali era terrivelmente precisos para serem de origem humana. E nem o quanto ele era perigoso.
Sim, pois o intento alenígena era, além de se divertir às custas do pequeno mundo, dominá-lo de alguma forma. Mas sem que os terráquios se dessem conta, já que era muito atraente observá-los séculos a fio, como formigas ocupadas demais em seus afazeres pra se darem conta de qualquer coisa além de sua colônia.
O invento extraterrestre atingiu seu objetivo. Primeiramente foi visto com desconfiança pelo povo europeu da Idade Média, mas sua precisão rítmica logo encantou capitalistas e assalariados, que passaram a dividir seu dia buscando dedicar mais tempo às atividades mais rentáveis, a estabelecer o preço dos produtos de acordo com quanto tempo ele levava pra ser feito, e inclusive a designar cada hora de trabalho com um valor pecuniário específico, de acordo com a "máquina".
Na Idade Moderna e na Contemporânea, esse invento ganhou cada vez mais imoirtância. Tornou-se belo, caro, de ouro, digital e acoplado a outras tecnologias. Foi através dele que os momentos inexplicáveis, únicos em sua breve existência, passaram a ser valorizados a partir de sua quantidade, e não de sua intensidade.
Acessório indispensável na vida do homem atual e motivo de chacota aos verdadeiros criadores, que prenderam todo um planeta às ordens ditadas a partir do primeiro irritante tiquetaquear ouvido.
Essa é a verdadeira história dos relógios.






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