terça-feira, 11 de janeiro de 2011

CATARSE

Esse é um conto puramente ficcional. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. Abriu a porta do apartamento já ansiando por qualquer lugar onde deixar suas coisas. Carregar papéis e pastas, maletas de executivo e tudo o mais contribuía, sem dúvida, para irritá-lo em seu cansaço. Jogou tudo em cima da escrivaninha e foi tomar um banho relaxante. Cheirando a sabonete masculino e ainda enrolado na toalha, sentou-se em sua poltrona. Fora um dia difícil, mas sem dúvida produtivo. Fechara um importante acordo com uma transnacional europeia, e isso ampliaria os mercados da empresa para a qual trabalhava. Estava satisfeito, sentindo-se um vitorioso. Mas agora, porém, devia desligar-se do trabalho, dos afazeres, da vida profissional. Esse era o maior desafio que ele enfrentava todo o dia. Quase sem querer, seus olhos passaram ao livro de contos que encontrara no metrô. Detestava transporte público, aglomeração, espera, filas e mais filas. Esperava sinceramente que seu carro voltasse do concerto no dia seguinte. Senão... Calou seus pensamentos. ''Chega de estresse''. Resolveu pegar o livro para relaxar. Seu apartamento recém-adquirido era pequeno e confortável, mas tinha toques de requinte: um tapete persa no quarto, lençóis egipcios na cama, ornamentos africanos na sala onde agora estava, souvenirs de suas constantes viagens a negócio. Levantando-se vagarosamente, andou até a escrivaninha e estendeu a mão para o livro de capa amarelada. Não era muito fã de leituras, mas esperava que isso talvez funcionasse mais efetivamente do que os entediantes programas de televisão no processo de descansar. Sentou-se novamente em sua poltrona cor de musgo e abriu a primeira página onde se liam os nomes dos contos. Escolheu um ao acaso, abriu na página corresponde e começou a ler. "Ele só queria desligar-se do trabalho. Sentou-se em sua poltrona para ler um livro e, quase sem querer, começou a ouvir os sons na avenida movimentada lá embaixo. Escutou motos e carros a toda a velocidade. Sentiu a brisa entrar pela janela e resolveu fechá-la.''




Como sempre acontecia quando começava a ler um livro, ele foi desligando-se das palavras e passou a prestar atenção em outras coisas. O que o perturbava eram aqueles veículos andando a velocidade da luz na avenida onde morava. De repente sentiu-se muito cansado, como se estivesse prestes a pegar um resfriado. Achou melhor fechar a janela e interromper o fluxo da brisa que chegava até ele. Não podia se dar ao luxo de ficar doente agora, não quando tinha tanto trabalho a fazer. Fechou a janela, puxou a cortina, mas não sentiu-se melhor. Voltou ao livro. ''Se quisesse, poderia acompanhar as brigas diárias do casal que morava num apartamento ao lado do seu. Bom, mesmo se não quisesse. Eles não pareciam fazer questão de esconder.'' Girou seu pescoço para tentar aliviar a dor que ameaçava tomar conta de seu corpo. Pensou se ainda teria analgésicos na gaveta de remédios. Achava que não. Tentou novamente se concentrar na leitura, mas pra ajudar sua vizinha dona de uma loja de eletroeletronicos (e que sempre lhe dava um sorridente bom dia no elevador) estava mais uma vez discutindo com o marido, o eterno empresário frustrado a espera de uma promoção. Ele tentou ignorar o fato, anotando mentalmente alguma coisa como: ''nunca me casar''. Aonde estava mesmo no livro?Ah, sim. ''Sentiu uma terrível e assustadora pontada na cabeça, e uma estranha sensação de mal-estar, como se algo ruim estivesse para acontecer. Ouviu o celular tocar e correu para atendê-lo. Como sempre, trabalho. Quando voltou ao livro, não sabia nem o que estava fazendo com ele: só pensava no telefonema.'' Ouvira falar que muito trabalho baixava a imunidade. Besteira, trabalho era sempre o melhor remédio. Se bem que um fim de semana prolongado em sua casa de campo não seria ruim... Sombra e água fresca, andar a cavalo e dormir até mais tarde. Poderia convidar alguma colega de trabalho... Não. Acabariam tocando em assuntos da empresa. Convidaria, então, sua bela prima de pernas torneadas... Era só esperar pelo próximo feriado. Repreendeu-se, por desviar-se da leitura, e assim que voltou a se concentrar nas palavras, sua cabeça latejou, como se uma faca a tivesse perfurado. Curvou-se sobre si mesmo até praticamente deitar sobre a toalha que o envolvia da cintura pra baixo. O livro caiu no chão, sua visão turvou-se. Sua respiração saía com dificuldade. Ficou assim por alguns minutos, e então normalizou-se. Porém ficou preocupado. ''Amanhã vou marcar uma consulta'', decidiu. Pensou se valeria a pena terminar o conto, afinal, faltavam apenas algumas linhas. Mas parecia tão chato e enfadonho... O conhecido toque de seu celular o fez despertar. Correu pela sala a sua procura, e depois lembrou-se que o jogara em cima da cama quando tirara as roupas para tomar banho. Era seu chefe. - Alô? - Temos problemas. - claro, senão por que ele ligaria a essa hora da noite? - O que houve? - mal conseguia disfarçar a preocupação na voz. - O negócio com a espanhola. Marcaram uma reunião para amanhã, às oito. Acho que a concorrente ofereceu um preço melhor. - Impossível. Eu chequei todo o processo de produção e o preço em que chegamos é o mais baixo possível. - seu cérebro estava a mil. O que eles queriam? Sua exposição dos produtos fora perfeita! - Bom, liguei apenas para avisar. Espero que até amanhã você já tenha pensado em alguma coisa pra lhes oferecer, caso eles queiram cancelar. - Sim, senhor. Até amanhã. Droga! Todo o trabalho de meses seria em vão? Todo o estudo sobre o mercado europeu e os cortes possíveis para oferecer o melhor preço, e ele queriam desistir? Malditos. Voltou a sentar-se na poltrona, recolheu o livro por puro instinto de organização, e procurou a página onde estava, sem nem saber o que fazia. Talvez, se baixasse 5% o salário da mão-de-obra direta... ''Foi quando ouviu baterem à porta. Estranho, por que o porteiro não avisara?E por que não estavam usando a campainha? Levantou-se para abri-la.'' ...ou então comprasse materiais de embalagem de segunda linha... Não afetaria a qualidade do produto em si, mas baixaria o preço, nada muito significativo, porém... ''Nem olhou pelo olho mágico, abriu a porta e levou um tiro na cabeça, morrendo instantaneamente.'' O conto acabara, com um final idiota. Também, mesmo se fosse alguma coisa que prestasse, não saberia, já que mal prestara atenção às palavras que bailavam à sua frente. Estava preocupado. Onde errara? Ou talvez nem fosse nada disso. Poderiam simplesmente acertar alguns detalhes, querer mudar alguma coisa... Toc, toc, toc. Bateram na sua porta. Foi atender.

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