Soprava uma brisa gelada pela noite.Aconchegando-se mais dentro do casaco, Artur previu uma gripe se aproximando.No dia seguinte ele provavelmente não se levantaria da cama sem um analgésico.
Riu diante da banalidade desse pensamento; estava prestes a fazer uma coisa que mudaria o rumo de sua vida, e se preocupava em pegar uma gripe.''O homem às vezes age de maneira ridícula'', concluiu.
Já passavam das dez da noite, e mesmo assim seus passos eram lentos.Realmente, não era uma hora adeuqada para uma visita.''Mas'', pensou ele, maliciosamenet, ''não será uma visita comum''.
Ele passava em frente às casas e espiava pelas janelas. Via luzes fluorescentes e televisões ligadas no último bloco da novela das nove. Burnurinhos de vozes, risos, gritos, sussuros, garfos raspando o fundo de pratos, conversas ao telefone, crianças brincando, bebês chorando e mães cantando emprestavam aos tijolos, cimento e móveis a qualidade única e quente da palavra ''lar''.
Artur, sozinho e tremendo sob o sereno, teve o coração invadido pela cobiça.Queria uma mulher pra chamar de esposa, crianças pra chamar de filhos, uma casa pra chamar de lar.Enquanto andava, porém, seu teto eram as estrelas, e seus companheiros, o medo e a ansiedade.Às famílias, os momentos aconchegantes; a ele, as decisões difíceis.
De repente, algo mudou. Ele não soube dizer o que era, não teve tempo de raciocinar. Foi apenas uma sensação que durou pouco mais do que alguns milésimos de segundo. Então, uma sucessão de acontecimentos se entrelaçaram, como numa batida de automóveis. Não houve uma ordem cronológica, tudo apenas aconteceu, bem diante de seus olhos.
As luzes de todos os postes e casas se apagaram, e houve um momento de silêncio tão profundo que nem mesmo a respiração de Artur ousou quebrar. Paralisado, ele viu um par de olhos surgir por entre as casas e encará-lo como dois neóns. Eles eram a única luz em um raio escuro a perder de vista. E o pior: era impossível ver a quem pertenciam.
Um longo segundo se passou enquanto dois pares de olhos se fixaram um no outro, sem pestanejar. Artur pôde jurar que sentiu o aroma da própria morte emanando da escuridão que o envolvia.
Instintivamente, o rapaz colocou a mão no bolso do casaco e encontrou o objeto que ali estava. Seu mero toque pareceu reconfortante.
Uma sirene da moto do guarda noturno gelou todos os seus ossos e rompeu com a magia negra que parecia imperar ali. Por um fugaz instante, Artur achou que a polícia estava atrás dele e pensou em fugir. As luzes se acenderam todas de uma vez e dissiparam definitivamente a paralisia tangível que envolvera o tempo e seus pensamentos. O medo insano passou, revelando que os olhos fluorescente eram, afinal, apenas de um enorme gato preto em um muro, que fugiu assim que foi descoberto.
O vigilante passou a alguns metros de Artur, que ao vê-lo próximo segurou com força o objeto em seu bolso. Os dois trocaram um boa-noite e seguiram cada um o seu caminho.
Os pés de Artur o fizeram dobra uma esquina. Suas veias estavam dilatadas, e o oxigênio entrava em seus pulmões com dificuldade, como se o ar fosse feito de concreto. Já não sabia porque tremia e suava: se de medo pelos segundos loucos e aterrorizantes que vivera a pouco, ou pelos que viriam, baseados em sua própria decisão. Agira, estava muito próximo de seu destino.
Começou a filosofar sobre a existência do destino. Era ele quem ditava os acontecimentos? As decisões a serem tomadas, as encruzilhadas, o poder de escolha, isso realmente existia ou fazia parte de um mecanismo além do entendimento humano, muito mais complexo do que a origem do Universo, muito mais infinito que este? O fato de estar ali, naquela rua, naquela hora, com aquele dilema crucial na cabeça e com aquele objeto no bolso, eram consequências de seus passos ou apenas obedeciam a um fio condutor, como nas marionetes, liderado por alguém (ou alguma coisa) que realmente conhecia a verdade, o começo e o fim, a vida e a morte?
Divagando sobre essas perguntas sem respostas para fugir da questão que ele realmente tinha que solucionar, Artur passou em frente a uma igrejinha do bairro. Ele não seguia nenhuma doutrina a algum tempo, mesmo assim sentiu um impulso de entrar ali. As portas estavam abertas, e ele se sentou no último banco.
Iluminada com poucas velas, a igreja grave e austera o acolheu. Seus vitraiseram pequenos e simles, não permitindo a entrada do luar. Os bancos da assembleia, as cadeiras do padre e coroinhas e o altar eram cor de tabaco, o que aumentava o tom de seriedade. Seu tamanho era menor do que o usual até mesmo para capelas, tendo apenas duas fileiras de assentos.
Artur estava sentado an fileira da esquerda, e no ponto mais distante a ele, nos primeiros bancos da direita, encontrava-se um coral de velhinhas. Elas cantavam um hino à meia vóz, nem se deram conta da entrada de um estranho.
Ficou ali por um tempo, silenciando seu coração e preparando-se para o que iria fazer. Refletiu, sem perceber, o quanto um templo pode ser calmante à alma. Não orou - julgava não saber - e nem pensou muito. Canalizou sua concentração para o dilema que o dilacerava. Duas opções, uma escolha. Tudo se resumia a isso. Se acomodar ou agir, fugir ou lutar, se esconder ou revidar todas as pancadas que já levara.
Usar ou não o que trazia consigo e pôr um ponto final em todos os insultos e sofrimentos? Nesse momento, o que carregava pareceu pesar muito mais do que o real. Pareceu pesar toda sua decisão, todo o futuro de sua vida.
As velhas pararam de cantar e fizeram uma oração que Artur acompanhou involuntariamente:
- Ave-Maria, cheia de graça... - o som da prece foi enchendo as paredes, o teto, o ar, num só ritmo: o dos corações unidos na fé. - Bendito é o fruto do vosso ventre... - os olhos de Artur se encheram de lágrimas. Havia tomado sua decisão. - Rogai por nós, pecadores, agora e na hora de nossa morte. Amém!
As palavras ainda ressoavam no peito do rapaz, dilacerando sua alma com o poder que tinham enquanto ele saía da igreja, pensando que aquele lugar era, no fim das contas, muito fúnebre. Em seu rosto, emtampava-se um sorriso onde se lia alívio e determinação.
Caminhou mais algumas quadras e entrou em um quintal por um portão baixo. Parou em frente a porta azul escura. Sua cor intensa só era quebrada por um olho mágico à altura de sua testa. Tocou a campainha que ficava no canto esquerdo e esperou, enquanto um momento tenso se passava atrás da madeira.
Foi recebido pelo rosto mais lindo do mundo, que estava assustado. A dona vestia um roupão rosa claro e o indagava, com seus olhos pequenos e cheios de vida, se ele estava louco. Artur reparou que a barriga parecia inocente demais sob o robe felpudo, e seu coração sorriu ao se lembrar do que tinha lá dentro.
- Entre. - disse ela, dando-lhe passagem.
- Com licença. - pediu ele, surpreso com a segurança em sua própria voz.
Adentrou calmamente na sala e desejou uma boa noite aos que estavam ali. A mulher no sofá o respondeu, o homem na poltrona não. Nem sequer desviou os olhos do aparelho de TV.
_ Sente. - ofereceu a mulher.
Ligeiramente encabulado, ele se sentou no sofá de couro marrom. O calor no ambiente pareceu aumentar durante o desagradável silêncio que se seguiu, muito pior do que os silêncio de frente aos olhos do gato, quando Artur achou que morreria. Na verdade, o calor era seu rosto ruborizando-se, mas ele não percebeu. Ao contrário, dirigiu a palavra ao homem sentado na poltrona:
- Prometo ser rápido e não tomar muito seu tempo, senhor. - a única voz que o respondeu foi da personagem do filme. "Precisamos encontrar a saída, Alfred!" - Eu sei que já é tarde, e peço desculpas por isso, mas creio que, mesmo se a hora fosse adequada, eu não seria bem-vindo aqui. - respirou fundo e soltou todas as injustiças que fora obrigado a ouvir, erguendo ligeiramente a voz. - a julgar pelos insultos, injúrias, desfeitas e pirraças que o senhor já me deu, de graça, acredito conhecer sua opinião sobre mim. Mas esse é o momento pra lhe mostrarquem eu realmente sou. - o rapaz se levantou e o homem desviou os olhos do aparelho, imitando-o. A moça de robe pensou que Autur parecia ter crescido uns cinco centímetros apenas com sua bravura. - Vou lhe provar meu valor. Não sou o merda, o vagabundo sem ambição que você cansou de repetir que eu era, aos berros na porta dessa mesma casa. Não sou nada disso, e vou lhe mostrar que posso não ter dinheiro, sorte e nem nada disso, mas tenho uma coisa que você nunca teve: coragem. Chega! Não vou mais me sujeitar aos seus caprichos.
Sacou do paletó o objeto que o libertaria da tirania do velho - que, a propósito, estava roxo de raiva - e o revelou a todos. A boca das duas mulheres formou um "O" quando viram o que era. Os olhos de todos arregalaram-se. "O que ele pretende fazer com isso?", pensou a mãe da moça, segurando com força no sofá. O objeto reluziu rapidamente antes que Artur dissesse, suave mas decididamente:
- Renata, quer se casar comigo?
Riu diante da banalidade desse pensamento; estava prestes a fazer uma coisa que mudaria o rumo de sua vida, e se preocupava em pegar uma gripe.''O homem às vezes age de maneira ridícula'', concluiu.
Já passavam das dez da noite, e mesmo assim seus passos eram lentos.Realmente, não era uma hora adeuqada para uma visita.''Mas'', pensou ele, maliciosamenet, ''não será uma visita comum''.
Ele passava em frente às casas e espiava pelas janelas. Via luzes fluorescentes e televisões ligadas no último bloco da novela das nove. Burnurinhos de vozes, risos, gritos, sussuros, garfos raspando o fundo de pratos, conversas ao telefone, crianças brincando, bebês chorando e mães cantando emprestavam aos tijolos, cimento e móveis a qualidade única e quente da palavra ''lar''.
Artur, sozinho e tremendo sob o sereno, teve o coração invadido pela cobiça.Queria uma mulher pra chamar de esposa, crianças pra chamar de filhos, uma casa pra chamar de lar.Enquanto andava, porém, seu teto eram as estrelas, e seus companheiros, o medo e a ansiedade.Às famílias, os momentos aconchegantes; a ele, as decisões difíceis.
De repente, algo mudou. Ele não soube dizer o que era, não teve tempo de raciocinar. Foi apenas uma sensação que durou pouco mais do que alguns milésimos de segundo. Então, uma sucessão de acontecimentos se entrelaçaram, como numa batida de automóveis. Não houve uma ordem cronológica, tudo apenas aconteceu, bem diante de seus olhos.
As luzes de todos os postes e casas se apagaram, e houve um momento de silêncio tão profundo que nem mesmo a respiração de Artur ousou quebrar. Paralisado, ele viu um par de olhos surgir por entre as casas e encará-lo como dois neóns. Eles eram a única luz em um raio escuro a perder de vista. E o pior: era impossível ver a quem pertenciam.
Um longo segundo se passou enquanto dois pares de olhos se fixaram um no outro, sem pestanejar. Artur pôde jurar que sentiu o aroma da própria morte emanando da escuridão que o envolvia.
Instintivamente, o rapaz colocou a mão no bolso do casaco e encontrou o objeto que ali estava. Seu mero toque pareceu reconfortante.
Uma sirene da moto do guarda noturno gelou todos os seus ossos e rompeu com a magia negra que parecia imperar ali. Por um fugaz instante, Artur achou que a polícia estava atrás dele e pensou em fugir. As luzes se acenderam todas de uma vez e dissiparam definitivamente a paralisia tangível que envolvera o tempo e seus pensamentos. O medo insano passou, revelando que os olhos fluorescente eram, afinal, apenas de um enorme gato preto em um muro, que fugiu assim que foi descoberto.
O vigilante passou a alguns metros de Artur, que ao vê-lo próximo segurou com força o objeto em seu bolso. Os dois trocaram um boa-noite e seguiram cada um o seu caminho.
Os pés de Artur o fizeram dobra uma esquina. Suas veias estavam dilatadas, e o oxigênio entrava em seus pulmões com dificuldade, como se o ar fosse feito de concreto. Já não sabia porque tremia e suava: se de medo pelos segundos loucos e aterrorizantes que vivera a pouco, ou pelos que viriam, baseados em sua própria decisão. Agira, estava muito próximo de seu destino.
Começou a filosofar sobre a existência do destino. Era ele quem ditava os acontecimentos? As decisões a serem tomadas, as encruzilhadas, o poder de escolha, isso realmente existia ou fazia parte de um mecanismo além do entendimento humano, muito mais complexo do que a origem do Universo, muito mais infinito que este? O fato de estar ali, naquela rua, naquela hora, com aquele dilema crucial na cabeça e com aquele objeto no bolso, eram consequências de seus passos ou apenas obedeciam a um fio condutor, como nas marionetes, liderado por alguém (ou alguma coisa) que realmente conhecia a verdade, o começo e o fim, a vida e a morte?
Divagando sobre essas perguntas sem respostas para fugir da questão que ele realmente tinha que solucionar, Artur passou em frente a uma igrejinha do bairro. Ele não seguia nenhuma doutrina a algum tempo, mesmo assim sentiu um impulso de entrar ali. As portas estavam abertas, e ele se sentou no último banco.
Iluminada com poucas velas, a igreja grave e austera o acolheu. Seus vitraiseram pequenos e simles, não permitindo a entrada do luar. Os bancos da assembleia, as cadeiras do padre e coroinhas e o altar eram cor de tabaco, o que aumentava o tom de seriedade. Seu tamanho era menor do que o usual até mesmo para capelas, tendo apenas duas fileiras de assentos.
Artur estava sentado an fileira da esquerda, e no ponto mais distante a ele, nos primeiros bancos da direita, encontrava-se um coral de velhinhas. Elas cantavam um hino à meia vóz, nem se deram conta da entrada de um estranho.
Ficou ali por um tempo, silenciando seu coração e preparando-se para o que iria fazer. Refletiu, sem perceber, o quanto um templo pode ser calmante à alma. Não orou - julgava não saber - e nem pensou muito. Canalizou sua concentração para o dilema que o dilacerava. Duas opções, uma escolha. Tudo se resumia a isso. Se acomodar ou agir, fugir ou lutar, se esconder ou revidar todas as pancadas que já levara.
Usar ou não o que trazia consigo e pôr um ponto final em todos os insultos e sofrimentos? Nesse momento, o que carregava pareceu pesar muito mais do que o real. Pareceu pesar toda sua decisão, todo o futuro de sua vida.
As velhas pararam de cantar e fizeram uma oração que Artur acompanhou involuntariamente:
- Ave-Maria, cheia de graça... - o som da prece foi enchendo as paredes, o teto, o ar, num só ritmo: o dos corações unidos na fé. - Bendito é o fruto do vosso ventre... - os olhos de Artur se encheram de lágrimas. Havia tomado sua decisão. - Rogai por nós, pecadores, agora e na hora de nossa morte. Amém!
As palavras ainda ressoavam no peito do rapaz, dilacerando sua alma com o poder que tinham enquanto ele saía da igreja, pensando que aquele lugar era, no fim das contas, muito fúnebre. Em seu rosto, emtampava-se um sorriso onde se lia alívio e determinação.
Caminhou mais algumas quadras e entrou em um quintal por um portão baixo. Parou em frente a porta azul escura. Sua cor intensa só era quebrada por um olho mágico à altura de sua testa. Tocou a campainha que ficava no canto esquerdo e esperou, enquanto um momento tenso se passava atrás da madeira.
Foi recebido pelo rosto mais lindo do mundo, que estava assustado. A dona vestia um roupão rosa claro e o indagava, com seus olhos pequenos e cheios de vida, se ele estava louco. Artur reparou que a barriga parecia inocente demais sob o robe felpudo, e seu coração sorriu ao se lembrar do que tinha lá dentro.
- Entre. - disse ela, dando-lhe passagem.
- Com licença. - pediu ele, surpreso com a segurança em sua própria voz.
Adentrou calmamente na sala e desejou uma boa noite aos que estavam ali. A mulher no sofá o respondeu, o homem na poltrona não. Nem sequer desviou os olhos do aparelho de TV.
_ Sente. - ofereceu a mulher.
Ligeiramente encabulado, ele se sentou no sofá de couro marrom. O calor no ambiente pareceu aumentar durante o desagradável silêncio que se seguiu, muito pior do que os silêncio de frente aos olhos do gato, quando Artur achou que morreria. Na verdade, o calor era seu rosto ruborizando-se, mas ele não percebeu. Ao contrário, dirigiu a palavra ao homem sentado na poltrona:
- Prometo ser rápido e não tomar muito seu tempo, senhor. - a única voz que o respondeu foi da personagem do filme. "Precisamos encontrar a saída, Alfred!" - Eu sei que já é tarde, e peço desculpas por isso, mas creio que, mesmo se a hora fosse adequada, eu não seria bem-vindo aqui. - respirou fundo e soltou todas as injustiças que fora obrigado a ouvir, erguendo ligeiramente a voz. - a julgar pelos insultos, injúrias, desfeitas e pirraças que o senhor já me deu, de graça, acredito conhecer sua opinião sobre mim. Mas esse é o momento pra lhe mostrarquem eu realmente sou. - o rapaz se levantou e o homem desviou os olhos do aparelho, imitando-o. A moça de robe pensou que Autur parecia ter crescido uns cinco centímetros apenas com sua bravura. - Vou lhe provar meu valor. Não sou o merda, o vagabundo sem ambição que você cansou de repetir que eu era, aos berros na porta dessa mesma casa. Não sou nada disso, e vou lhe mostrar que posso não ter dinheiro, sorte e nem nada disso, mas tenho uma coisa que você nunca teve: coragem. Chega! Não vou mais me sujeitar aos seus caprichos.
Sacou do paletó o objeto que o libertaria da tirania do velho - que, a propósito, estava roxo de raiva - e o revelou a todos. A boca das duas mulheres formou um "O" quando viram o que era. Os olhos de todos arregalaram-se. "O que ele pretende fazer com isso?", pensou a mãe da moça, segurando com força no sofá. O objeto reluziu rapidamente antes que Artur dissesse, suave mas decididamente:
- Renata, quer se casar comigo?



