sábado, 17 de dezembro de 2011

Legalizar ou não?

Os motivos que levam uma mulher a praticar um aborto podem ser de várias naturezas, mas geralmente estão enraizados em dificuldades econômicas e despreparo psicológico para criarem um filho. As maneiras com que se faz um aborto também variam, todas sendo profundamente agressivas. A legalização do aborto não mantêm relações com ambas as características e é encarada com muito preconceito pela sociedade.
A vida começa no momento da fecundação, quando o feto se forma ou quando a criança nasce? Independentemente da religião, credo ou não credo, o aborto é um ato terrível. O óvulo fecundado pode ou não representar uma vida, mas sem dúvida abortá-lo é matar um futuro ser. Não é porque ele não sente dor que ele não perdeu sua vida. O aborto também não é uma decisão da mulher sobre o que fazer com seu corpo, dado que o feto que ela está gerando não faz parte de seu corpo, tem DNA próprio, é outro ser. Muitas mães são abandonadas pelos companheiros, não têm condições financeiras ou maturidade suficiente. Contudo, existem outras alternativas, como entregar o filho à adoção. Negar-lhe o direito à vida é repulsivo.
Isso posto, analisemos a prática do aborto: muitas vezes feito em condições insalubres, sem os equipamentos necessários, sem higiene e sem o acompanhamento de um profissional que garanta a segurança da mulher. O que era para ser uma morte cruel pode se transformar em duas. Exposta a toda sorte de infecções e complicações, a mulher corre o risco de morrer durante o procedimento mal feito. A legalização do aborto garantirá às mulheres o cuidado necessário com sua saúde e minimizará as perdas humanas. Não aumentará o número de abortos feitos, pois quem não tem coragem de matar um filho que ainda nem nasceu não o fará, independentemente de ser um crime ou não. Assim também será possível abrir uma discussão na sociedade a respeito do aborto e trabalhar em cima da conscientização das mulheres, tanto com relação a controle de natalidade, quanto à desumanidade do aborto. Sendo ilegal, torna-se um tabu. E nenhuma sociedade avança estando minada por bolsões de assuntos restritos e não esclarecidos.
Ser contra o aborto é diferente de ser contra sua legalização. Legalizar não estimula o aborto, mas minimiza as maneiras perigosas e ameaçadoras com que são feitos.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

O SISTEMA PENITENCIÁRIO NO BRASIL

Pesquisas apontam que o número de presos no Brasil é muito maior do que o suportado pelo nosso sistema carcerário, e as condições de superlotação nos presídios não contribuem para a regeneração dos indivíduos. Ao contrário, um criminoso sai da cadeia mais perigoso do que quando entrou. Torna-se urgente encontrar uma solução para esse problema, que a cada dia vai se acumulando.
Um aspecto que impede a reabilitação de presos são as condições em que são submetidos nos presídios. Esse é um ponto encarado com muito preconceito. É preciso que a sociedade entenda que ser tratado com dignidade é diferente de estar cercado de regalias. Todo ser humano tem direito a suprir necessidades básicas, sem as quais ele se degrada física e psicologicamente. Não é luxo ter um lugar decente pra dormir, se limpar, comer. Só assim é possível tentar despertar no indivíduo um processo de arrependimento e regeneração. Grande parte do problema da falta de dignidade nas cadeias reside na superlotação.
De maneira direta, instituir a pena de morte no Brasil traria, a longo prazo, uma diminuição do número de presos na cadeia, redução nos custos para sua manutenção, e até a diminuição da criminalidade, já que os presos que poderiam ser soltos e voltar a cometer crimes estariam mortos. Isso seria, contudo, um massacre. O Estado, sob guarda da lei, determinaria quem vive e quem morre, e seria impossível garantir que erros não aconteceriam, como o caso de Marcos Mariano da Silva, preso por 19 anos, sem ter cometido crime algum. Quando foi solto, Marcos moveu um processo contra o Estado e recebeu uma indenização de 2 milhões de reais. O pagamento da última parte do dinheiro foi determinado no último dia 22. Na mesma data, Marcos veio a falecer. Casos desse tipo não são raros, e custam anos da vida de inúmeros inocentes intocados pela justiça.
Por mais desumanos que tenham sidos os crimes dos prisioneiros, o Estado não tem o direito ceifar-lhes a vida, pois seu papel é guardar o povo, e não assassiná-lo. É preciso, sim, proteger os cidadãos de bem dos criminosos, e fazer isso com eficiência, não através desse sistema carcerário deficitário. A primeira necessidade é garantir que a justiça não cometa erros. Não é fácil, da mesma maneira que não é fácil para um médico não cometer erros, mas é um objetivo que deve ser perseguido por todas as sociedades democráticas. É preciso também oferecer aos condenados oportunidades reais de reabilitação dentro dos presídios, como acompanhamento psicológico e cursos profissionalizantes, por exemplo. Nos casos em que não há solução, como psicopatas e sociopatas, o caminho é manter a população segura de suas ações. É inconcebível mantê-los por anos dentro de uma penitenciária tão superlotada quanto as do Brasil, agravando sua loucura, e depois colocá-los em liberdade. A única solução possível é sua reclusão perpétua – em condições dignas, importante ressaltar.
A dignidade, em si, é algo que deve ser observado no sistema carcerário como um todo. O Programa Nacional de Apoio ao Sistema Prisional, lançado na última semana, consiste num repasse de recursos da União para os estados. Essa verba será de 1,1 bilhão de reais, destinada a ampliar o número de penitenciárias, zerar o déficit nos presídios femininos e diminuir a quantidade de presos em cadeias provisórias. Longe de ser a solução para o problema, é um primeiro passo de uma longa jornada para a segurança pública no Brasil.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011



Como Pigmalião, ela tinha cinzelado uma estátua, e talvez, como o artista mitológico, se apaixonasse por sua criatura, de que o homem não fôra senão o grosseiro esboço. E não é esta a eterna legenda do amor, nas almas iluminadas pelo fogo sagrado ? (Senhora, José de Alencar)

sábado, 8 de outubro de 2011



Algumas vezes, só nos resta sermos fortes.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Sorte

Não há nada que assuste mais do que a idéia de que tudo é fruto da sorte. O acaso como fator principal desencadeador de acontecimentos é terrível. Nesse contexto, todo esforço, sacrifício, dedicação, são vãos. Toda e qualquer virtude não tem utilidade, pois não dependerá do uso dela os resultados almejados, mas sim da aleatoriedade. Experimente pensar que todo seu esforço diário, todo seu empenho em prol de alguma causa – social ou privada – cede lugar à sorte. Ganha uma corrida não quem treina com mais afinco, ou resiste por mais tempo à dor e ao cansaço, mas quem é contemplado com uma estrela da sorte injusta, inconsciente. A sorte é cega.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Rá Tim Bum

Agora que tenho 18 anos eu POSSO:
- Tirar minha CNH;
- Passar para a função de operadora de caixa onde trabalho;
- Encontrar um emprego na área contábil;
- Assistir filmes pra maiores de 18 anos (inclusive pornográficos);
- Me casar sem precisar da autorização de meus pais;
- Fazer concurso público;
- Comprar bebidas;
- Ser presa.

O que eu VOU fazer:
- Um post com o que eu posso fazer agora.










quarta-feira, 31 de agosto de 2011

REFLEXO DOS FAMOSOS

A febre do cabelo Neymar toma conta dos salões de beleza. O moicano marca presença forte entre os meninos numa faixa muito grande de idade: desde os pequenos até os adolescentes aderem à moda. Durante a Copa do mundo de 2002, o corte que fez a cabeça da garotada era o cabelo raspado com um pequeno topete na frente, ao estilo Ronaldo Fenômeno. Impossível esquecer os esmaltes super coloridos e fluorescentes que a personagem Rakelly, de Ísis Valverde, usava na novela Beleza Pura, exibida pela Rede Globo em 2008, e que fizeram o maior sucesso nas mãos das brasileiras. Ou ainda os adereços exóticos incorporados ao guarda-roupa das mulheres brasileiras durante a exibição da novela Caminho das Índias, de Glória Perez, em 2009.
Popularmente, não são os grandes desfiles que ditam a moda e ganham a atenção dos consumidores, mas a divulgação dessas tendências apresentadas na passarela da mídia. O grande poder de influência que atores, cantores, apresentadores, jogadores de futebol e celebridades instantâneas exercem é enorme e perigoso. Enorme no sentido que atingem o público alvo de maneira certeira, através de propagandas explícitas, como os comerciais, ou sutis sugestões que uma roupa ou sapato são muito apreciados por determinado famoso ou personagem. Essa forma de divulgação de produtos surte efeito imediato nas ruas e nas receitas das empresas. É a publicidade mais rápida possível: o consumidor assiste na televisão um artista que ele admira usando uma peça bonita. Marketing poderoso.
Contudo, esse fenômeno também é muito perigoso, pois não se reflete apenas na economia. Um famoso não exibe só seu trabalho, os produtos que consome e sua aparência, mas também sua postura, atitudes. Bono Vox, vocalista da banda U2, é engajado em causas humanitárias; Angelina Jolie e Madona já apareceram diversas vezes na África em auxílio aos que lá passam fome. Tudo isso de alguma forma toca seus fãs. Assim como atitudes inconsequentes, rebeldes, imaturas. Drogas, violência, extravagâncias, tudo isso é absorvido, em maior ou menor grau, pelo público que os acompanha. Quanto mais novos os fãs, maior é essa captação, pois ainda há uma identidade sendo construída, que será moldada pelos exemplos que têm em casa, no convívio social e na mídia, tão presente.
É importante que aqueles que estão em constante exibição na imprensa pesem o quanto suas atitudes podem influenciar a sociedade, de maneira positiva ou negativa. A nós, anônimos, cabe ter senso crítico sobre o que deixamos afetar nossas vidas, e a de nossas crianças e jovens.

A COMUNICAÇÃO GLOBALIZADA

A vertiginosa velocidade no fluxo de informações da era digital representa uma das características da globalização. Nesse contexto, ainda há espaço para a televisão, o rádio, o jornal e livros impressos, como veículos portadores de conhecimento?
O método de impressão de livros aumentou a capacidade de produção, muito restrita quando se baseava em manuscritos, e assim trouxe a informação para mais perto das massas. O maior acesso à leitura de livros e jornais representou verdadeira revolução na comunicação. Desde a primeira transmissão radiofônica no Brasil, em 7 de setembro de 1922, a população foi mantida informada sobre os acontecimentos de diversas partes do mundo, como guerras, desastres naturais, movimentações políticas. A televisão, por sua vez, aproximou ainda mais o espectador da informação. O uso da imagem em movimento humanizou as notícias, trazendo as diferentes realidades ao alcance dos olhos. A rede mundial de computadores disponibiliza tudo isso – texto, áudio, imagem, vídeo – com apenas um clique.
À sua maneira, cada meio de comunicação representou uma revolução no campo informacional em sua época. E a cada novo avanço tecnológico, os recursos anteriores foram deixados um pouco de lado, dando espaço às vantagens do novo. Não se pode pensar, contudo, que a tendência é que um veículo dissolva completamente o outro.
É óbvio que o número de ouvintes de rádio diminuiu drasticamente após a chegada da televisão, mas até hoje as ondas eletromagnéticas levam informação no trajeto de casa ao trabalho ou à escola, por exemplo. A criação dos e-books, também, promete condensar uma quantidade enorme de cultura em um espaço físico bem menor – e mais barato – do que uma biblioteca. Porém não há nada que se compare ao prazer de se ter um livro nas mãos.
Pode-se argumentar que os meios ‘’antigos’’ só sobreviverão graças aos amantes de determinados meios de propagação de ideias, como os apaixonados por livros; mas para que a internet tenha o monopólio das informações é preciso, antes de tudo, que seja acessível a todos. Sabemos que atualmente, não é assim. Coexistem, então, todos os meio de comunicação já citados, preenchendo lacunas e integrando o mundo através do conhecimento, atendendo às diferentes necessidades da população, que não é, e nunca será, homogênea, ainda mais se tratando de ideias.

sábado, 13 de agosto de 2011

Posso ficar um tempo sem escrever, mas meu reencontro com as palavras é sempre cheio de saudade, intimidade, tesão.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

A MENINA QUE NÃO SABIA LER


Esse livro de Jhon Harding é um verdadeiro quebra-cabeça. Começa de maneira leve, suave e delicada, mostrando o percurso de Florence, a narradora, por entre as descobertas no mundo da literatura. Mas, aos poucos, a história vai ganhando densidade e poder de atração.

Tudo se desenvolve em 1891, na Nova Inglaterra. A princípio, conhecemos uma menina sem muitas perspectivas na vida, além de um confinamento ao analfabetismo (por ordem de seu ausente tio), as brincadeiras com seu querido irmão e os cuidados dos criados da residência decadente onde vive. Gradualmente, ela aprende a ler sozinha, descobre grandes obras da literatura na biblioteca da casa e seu horizonte se amplia. Passa também a um flerte com seu asmático vizinho e vê seu pequeno irmão, Giles, ir para um colégio interno. A primeira parte do livro trata basicamente dessa trama, nos apresentando as personagens sob o ponto de vista de Florence.

A última parte tem início com a chegada da segunda preceptora de seu irmão (a primeira morrera afogada em um lago, em circunstâncias que não ficam claras no livro), Srta. Taylor. Enquanto Giles se apega cada vez mais a preceptora, Florence está certa de que ela é um fantasma e está ali pra roubar seu maior tesouro: seu irmão.

A história amadurece quando se volta para o estilo gótico e envolve o leitor na trama de maneira que ele não sabe o que é realidade e o que é imaginação, o que é loucura e o que é sobrenatural. Tudo isso converge para um final surpreendente, onde as questões em aberto são respondidas subjetivamente, dando margem a diversas interpretações. Além disso, há a incrível fluidez com que as palavras passam diante dos olhos cada vez mais curiosos e aflitos de quem está lendo a história.

Oscilando entre o doce e o grotesco, a inteligência e a insanidade, Harding acerta em cheio na trama da menina que, aparentemente, sabia ler.

terça-feira, 9 de agosto de 2011


http://www.youtube.com/watch?v=l544aBmnJCA

sábado, 16 de julho de 2011





É um alívio saber que não importa quantos erros eu cometa, ou o quanto o mundo me machuque, sempre vai ter uma boa história à minha espera, pronta pra ampliar meus horizontes e me fazer descansar de quem eu sou.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Harry Potter

Estréia nesse final de semana o último filme da série Harry Potter. É uma das grandes histórias da nossa época e marcou a infância e adolescência de muitas pessoas, mas esse post vai focar no que isso representa pra mim, de maneira pessoal.


Tive contato com a história do Harry Potter na escola, onde assistimos o primeiro filme, "A Pedra Filosofal". Durante algum tempo, não me interessei muito. A pouca idade talvez tivesse algo a ver com isso, mas fato é que anos mais tarde resolvi ler os livros. Como havia assistido aos filmes já lançados, eu conhecia a história, então comecei a ler pelo terceiro volume, "O Prisioneiro de Azkaban". Me surpreendi com a riqueza de detalhes, a intensidade das personagens que eu não percebera nos filmes. Depois de começar com a leitura, não parei mais. Li toda a série e voltei para os filmes com outros olhos: eu sabia o que buscar; interpretava expressões faciais, falas e acontecimentos de acordo com o que eu lera; assisti aos filmes de maneira totalmente vinculada aos livros, e isso não prejudicou, ao contrário, enriqueceu minha visão e fez com que eu me apaixonasse pela história. E mais, dessa maneira eu descobri um novo estilo: o fantástico.


Harry Potter abriu as portas desse universo pra mim. Me tornei uma forasteira no mundo de Roland de Gilead, na Torre Negra; mergulhei na aventura de Frodo e Sam em Senhor dos Anéis; conheci a miscelânea que é a trilogia Eragon (com quatro livros, um a ser lançado ainda) ; comecei o incrível O Guia dos Mochileiros da Galáxia (parei no quarto livro, mas logo terminarei); assisti ao incomparável Star Wars e, atualmente, estou terminando Fronteiras do Universo, que me deixa simplesmente sem palavras, tal é sua riqueza de detalhes e ideias, além da forma maravilhosa como é escrita. Por tudo isso, só tenho agradecer a Hogwarts. Assim como todos os fãs de Harry Potter, sonhava em receber uma carta de lá. Não recebi, mas aprendi com ela a amar um tipo de história que me acompanhou em muitas tardes chuvosas, frias e, por que não, vai me acompanhar pro resto da vida.

domingo, 10 de julho de 2011

"No fundo o que eu quero é que ninguém me entenda/ Para eu poder te amar tragicamente!" Vinicius de Moraes


Dizem pra você correr atrás dos seus sonhos, lutar com garra por seus objetivos, mas não te contam quantas vezes você vai pensar em desistir; ninguém te avisa sobre o cansaço que vai cair sobre seus ombros, e nem sobre o desânimo diante de cada obstáculo. Alguns dias são mais difíceis que os outros; em alguns você lembra por que faz tudo aquilo que tem que fazer, mas em outros, sonho nenhum faz sentido. Tudo o que você mais deseja é descansar, apagar. É nesse momento que as forças dentro de você não são suficientes, e é preciso buscá-las naqueles que têm seu coração. Não se engane: você não continua por seus sonhos, mas por quem você ama. Ao final do dia, não é sua ambição que te revigora para a labuta do dia seguinte, mas a convivência com aqueles que são importantes. De nada adianta alcançar tudo aquilo que se almeja se não há com quem dividir. Quando o Sol se põe, você começa a pensar em quais vozes quer ouvir pra esquentar seu coração.

sábado, 2 de julho de 2011

Ter alguém pra chamar de lar.

Tem dias que eu canso de tentar crescer.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

“Deixa eu Falar”

Nesse domingo aconteceu a 15° edição da Parada Do Orgulho GLBT de São Paulo. Sábado passado, dia 18, o evento marcante foi a Marcha Pela Liberdade, evento que reuniu milhares de pessoas em várias cidades do país. Essas manifestações revelam o leque de assuntos que a sociedade pede atenção, e mesmo que não alcancem as causas pelas quais lutam – como por exemplo a legalização da maconha ou a erradicação da homofobia – provocam reflexão, conversas, são um convite ao pensar.
É inspirador ver as imagens e ler os comentários dos militantes que circulam nos meios de comunicação com frases preciosas. “Anistia para os Bombeiros, cadeia para o Palocci”, “Liberdade para Amar” e “Estupro não é piada, machismo mata” são apenas algumas ideias levantadas em bandeiras nos eventos. Elas mostram que a galera da era digital não é uma “geração perdida”, mas tem ideais, coragem de reivindicar, e faz bom uso dos vastos meios de comunicação e informação disponíveis. Dentre os temas representados no movimento Marcha Pela Liberdade estão a condenação da homofobia, a greve dos bombeiros e sua prisão, o escândalo sobre o patrimônio do ex-ministro Palocci, o estupro, o respeito aos ciclistas no trânsito, a liberdade como um todo. Já na Parada Gay, o destaque foi a comemoração pelos casais homossexuais que assinaram recentemente um contrato de união estável.
É inegável que esses assuntos geram polêmica; nossos representantes políticos entram em acordo sobre eles (quando entram) apenas depois de muito esforço, e com a população não é diferente. Num país onde a marca maior é a miscelânea, as opiniões divergem de acordo com o contexto, a criação, as experiências e vivências pessoais. Isso por um lado é bom, pois só assim é possível a existência de discussões que levam a crescimento intelectual. Claro que, em contrapartida, infelizmente temos casos de desrespeito à opinião alheia, mas isso não pode abater os espíritos dos militantes. Que continuem as manifestações pacíficas, e que elas mobilizem cada vez mais pessoas, acordando para sua condição de cidadãs. E que essas manifestações incentivem cada vez mais a reflexões, conversas, concordâncias e, por que não, discordâncias. Isso faz parte do processo para crescermos como nação.
“Posso não concordar com uma só palavra sua, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-las" (Voltaire). Você pode ser contra a lei que torna homofobia um crime, achar um absurdo a legalização da maconha ou mesmo acreditar que as mulheres devem evitar se vestirem de maneira sensual pra não provocar estupros, mas deve, acima de tudo, respeitar e, por que não, admirar acontecimentos como essas manifestações que vêm ocorrendo. Afinal, a maior liberdade que pode existir é a de pensamento. Não deixe de exercê-la e respeitar quem também o faz. Como diz a música do Raimundos: “Deixa eu Falar”.

Dar Esmola ou Não ?

Uma criança maltrapilha pedindo dinheiro não é cena rara. Infelizmente, repete-se várias vezes ao dia em praticamente todas as cidades brasileiras. Dando esmola, pode-se estar alimentando o vício em drogas, bebidas ou incentivando a exploração infantil por adultos cruéis. Por esses motivos, muitas pessoas não dão dinheiro e argumentam que, ao invés de esmolas, essas crianças precisam é de um lar, educação e família. Esquecem, porém, que a questão da esmola não se resume a isso.
Muitas pessoas vivem à margem da sociedade, morando nas ruas, sem emprego ou dignidade. Os fatores que levaram a essa crise são diversos. Podemos culpar o Capitalismo, a má distribuição de renda, o descaso dos governantes, até mesmo o individualismo que se instalou nos seres humanos. Dentre os excluídos da sociedade encontram-se muitas crianças, que levam a vida pedindo esmolas a motoristas e transeuntes. As drogas, o álcool e mesmo adultos que se aproveitam da condição dessas crianças e utilizam-nas como uma forma de ganhar dinheiro fácil são agravantes sérios, pois agem na manutenção do ciclo onde a infância se perde cada vez mais.
Nesse cenário, ajudar, mesmo com pouco, soa duvidoso. Parece uma contribuição para a continuidade do problema; obtendo resultados, a criança não vai parar de mendigar sob a pressão de seus responsáveis e começar a ir para a escola, ao contrário, continuará nas ruas; ou então, a criança pode usar o dinheiro para se entorpecer e afundar cada vez mais. Assim, muita gente se recusa a ajudar, acreditando estar fazendo o certo.
Segundo balanço da ONU, 300 milhões de crianças passam fome no mundo todo. É um número absurdo, e revela uma realidade chocante: milhões de crianças não têm condições de suprir uma das necessidades mais básicas do ser humano - se alimentar.
A solução para a fome é uma séria reforma social; uma mobilização coletiva com ações conjuntas entre governo e população. O correto é tomar pela mão a criança que pede esmola e entregá-la a uma entidade do Terceiro Setor (ONGS). Porém, na correria do dia-a-dia, quem faz isso?
Enquanto esperamos uma atitude das partes responsáveis – Estado e sociedade -, as crianças continuam sem ter o que comer. Mesmo consciente dos inúmeros caminhos que seu dinheiro pode tomar ao ser dado como esmola, ajude. Não por desencargo de consciência, pensando que fez sua parte. Mas pela terrível possibilidade de que aquela criança que lhe pediu esmola esteja com fome. E fome não espera nenhuma revolução.

sábado, 25 de junho de 2011

Nevoeiro



Minúsculas gotículas de umedecem a roupa, o cabelo, a pele. O ar está branco, e não é possível enxergar nada à frente ou atrás, apenas o que a lembrança desenha. Assusta prosseguir sem poder ver o que está adiante, mas é necessário caminhar. Quem para, fica. Quem se permite sentir o frio, congela. Quem desiste de tentar ver, se torna um cego em meio ao nevoeiro. Continuar não é uma escolha, pois as outras opções simplesmente não valem a pena. Cada passo traz em si a tristeza de deixar algo para trás e a esperança, quase temor, do que há em frente. O coração quente, dentro das camadas de sentimentos e emoções, não entende por que fechar ciclos é tão doloroso. É apenas mais um fato da vida, tal qual a gravidade que mantêm seus pés seguros, ou o oxigênio em seus pulmões. Mas por algum motivo, ele não consegue se desapegar, esquecer, deixar partir. A única coisa que o consola é a condensação: o nevoeiro vai cedendo ao entrar em contato com o calor de seu corpo. Ao seu redor, o ar torna-se transparente de novo, e por mais que a falta de visão amedronte, essa pequena vitória acende toda uma fagulha de esperança na intensidade e força de seu próprio calor.


Não há vento. Ainda está frio e difícil de enxergar, mas o coração enfim escolhe uma estrada, e por mais que deseje, não olha pra trás.

quinta-feira, 23 de junho de 2011



" Aonde estiver teu tesouro, aí estará também o teu coração." (Mateus 6, 21)





terça-feira, 7 de junho de 2011

MUROS

- Eu nunca fui dessas ladras de supermercado, banco, bate-carteira; eu nasci num bom lugar, fui bem criada, tive um ótima educação. Eu tenho, digamos, um certo talento com máquinas, aparelhos eletrônicos e... alarmes. Foi assim que consegui cometer tantos roubos bem sucedidos. Qualquer sistema de segurança, eu sempre invadi com facilidade, entende? O mundo do crime, depois que eu o experimentei uma vez, me viciou. Não há nada como a adrenalina do risco de ser pego. O dinheiro é um adicional muito bem vindo, mas invadir sistemas, desativar alarmes, abrir cofres... Esse é o meu barato. Você roubava pois é viciada em heroína, eu por que sou viciada em perigo.
Marta, a ouvinte, achava a loirinha na sua frente cada vez mais mimada.
- Moro, ou morava, melhor dizendo, num bairro muito rico; você não acreditaria nas casas que eu já arrombei! Lindas e grandes, com seus donos presunçosos me paquerando toda a manhã, quando eu saia pra pegar correspondências, enquanto suas esposas viciadas em cartões de crédito fingiam não ver. Tudo muito bonito por fora, mas extremamente sujo por debaixo do tapete. Durante a noite, enquanto eles saíam com seus filhos bem cuidados pra jantar num restaurante chique, eu fazia minhas incursões por suas casas. Jóias, quadros, vestidos, louças caras, perfumes, tudo me atría bem menos do que a adrenalina de ser pega. E isso quase aconteceu várias vezes, mas eu sempre conseguia me safar. Até que um dia...
A casa tinha que se manter às escuras, pra não despertar desconfianças nos outros vizinhos. Eram quase quatro horas da madrugada, e Lúcia estava longe de dormir. Precisava terminar aquela casa em menos de meia hora, pois a gambiarra que conseguira fazer para desligar o alarme não duraria mais do que isso. Logo a luz verde teria que ser reativada, senão a central de segurança perceberia algo errado.
Em sua mochila, guardara uma bolsa Chanel, um Jhonnie Walker, alguns garfos de prata e uma caixinha de música que entoava Lago dos Cisnes. Estava decidida a ir embora, satisfeita, quando seus olhos relancearam até um quadro na parede: surrealismo. Ela adorava a escola, e mesmo depois de analisar o quadro e classificá-lo como nada de preço extraordinário, decidiu levá-lo. Iria colocá-lo em seu porão, onde guardava seus ''segredos''. Já tinha até o espaço adequado pra ele: bem em frente à sua cadeira de couro (comprada), acima dos pequenos elefantes indianos que ficavam sob a lareira (roubados).
Iniciou o processo de tirá-lo da moldura, sabendo que contava com menos de vinte minutos. Mostrava uma moça chorando, com os cabelos esvoaçantes, e folhas douradas a cairem do céu; e dos olhos da moça, se podia ver um casal no meio de uma tempestade, sendo açoitados pelo vento; e, se a imaginação permitisse, uma tarde de sol, num parque, cujo horizonte se formava a partir dos cabelos revoltos da garota, e as folhas se transformavam em borboletas subindo ao céu, assustadas pelo que poderia tanto serem os dentes, quanto garotos jogando pedras. Era relativamente pequeno, mas sua intensidade a fazia vê-lo muito maior; a loucura que emanava dali preenchia-a, completava-a. Era mais do que um quadro, era um espelho.
Quando conseguiu retirá-lo da moldura e tê-lo em suas mãos, dirigiu-se à porta, que ficava no vestíbulo ao lado da sala de estar de onde pegara o quadro, e viu que a luz do alarme, que até então julgava desligado, estava verde. O medo fluiu em suas veias, atacando-a com a agradável sensação de pânico que a fazia sentir-se viva de verdade. Tomou consciência de cada pedaço de seu corpo, todo alerta, excitado. Não sabia a quanto tempo o alarme se ligara automaticamente, e nem a quanto tempo a central de segurança ficava dali, mas sabia que a essa altura eles já estavam informados que o alarme da casa havia se desligado por certo tempo, e que não fora inserido código nenhum de desativação. Ou seja: invasão.
Saiu pela porta, sem se importar com o aviso que dispararia na central de segurança ao abri-la com o alarme ligado. Nem se deu ao trabalho de tentar hibernar o alarme novamente. Precisava sair dali, rápido.
Para seu completo desespero, viu uma luz vermelha de sirene refletir-se no quintal. Eles já estavam ali, e com a polícia. Não estava surpresa, andava sendo muito procurada ultimamente, sua rotina de trabalho andava intensa. Em todo o bairro, assaltara mais de dez residências em uma semana. Estava se tornando famosa.
Como não queria que sua fama atingisse o patamar de estampar seu rosto de traços fortes nas páginas policiais do jornal da cidade, fugiu rapidamente para os fundos da casa, seguindo seus instintos, apurados ao mais elevado grau quando se sentia assim, encurralada como um bicho numa caçada. Tornava-se então pouco racional, e seguia a voz que lhe guiava silenciosa e certeiramente. Sua audição ficava mais perceptiva do que qualquer outro sentido, e ela conseguia ouvir que havia muita, muita gente na frente da casa (inimigos), mas que seu comparsa levara o carro até atrás da residência, onde a esperava agora, com o motor roncando baixo, porém forte, constante. Sim, aquele barulho era o som que seguia, o som da fuga por entre as veias da cidade, que se misturavam em sua cabeça, confusa por causa do excesso de adrenalina em suas células, com as próprias veias de seu corpo.
Chegando ao fundo da casa, viu que este consistia numa pequena área verde que, se bem cuidada, daria um belo jardim. O mato, porém chegava até suas canelas, ocultas por sapatos pretos e silenciosos tal qual pés alados. Adiante, estava seu amigo, amante, cúmplice, esperando-a dentro do carro. Podia jurar ouvi-lo resmungar para que andasse logo. Entre ela e a liberdade havia apenas uma coisa: o muro.
Ajeitou a mochila nas costas, e tentou se lembrar por onde começava. Primeiro, tinha que encontrar um ponto de apoio para impulsionar o corpo por cima do muro, que nem era tão alto, e então pular do outro lado. Simples, rápido, fácil. "Não, não será fácil", pensou ela. Era inteligente, chamada de ''nerd da informática" por uma garota boba com quem estudara. Entendia tudo de circuitos, eletricidade, eletrônica, mecânica. Desmontava e montava um relógio no colegial, desenhara seu primeiro motor antes mesmo de começar o curso de mecânica. Porém, nada que envolvesse força física lhe caía bem.
"Vamos, é só um muro, qualquer garotinho consegue fazer isso", repreendia-se. Não sabia onde apoiar os pés, pra começar, então simplesmente deu um salto e se agarrou no alto do muro. Seus braços frágeis não aguentaram seu peso, e um segundo depois estava esborrachada no chão, com alguns arranhões incômodos. "Tudo bem, isso não funcionou". Vasculhou então o quintal escuro rapidamente com os olhos, procurando por alguma coisa em que pudesse subir. Ao cabo de alguns instantes tensos, onde seu cérebro parecia não colaborar, viu um balde. Parecia fraco, mas calculou que devia aguentá-la.
Subiu nele, e viu que quase ficava da altura onde seus braços alcançariam a borda do muro. Só precisou dar um pequeno pulo, e logo agarrou-se novamente, ficando pendurada. Se caísse, seria em cima do balde.
Usou toda sua força de vontade, todo seu potencial, e canalizou-os para seus músculos dos braços. Agradeceu mentalmente por não ter roubado nada muito pesado essa noite. Conseguiu apoiar sua barriga no muro, o que lhe causou uma dor enorme. Seus braços e seu tronco ficaram pendurados do lado de fora, enquanto suas pernas ainda estavam do lado de dentro. Todo seu apoio estava, praticamente, no estômago. E ela não sabia mais o que fazer. Viu que Flávio estava impaciente no carro. Soltou um pedido de ajuda mudo, pois não aguentava sequer falar, de tanta dor. Estava simplesmente travada. Sua mente não funcionava, seus instintos a haviam abandonado. Sentia-se um bebê que não tinha domínio sobre o próprio corpo. Odiou Flávio por ficar ali, sentado no banco do motorista, e não ir ajudá-la. Esperou quase que ele buzinasse, como a dizer "vamos, vamos, não tenho todo o tempo do mundo", do mesmo jeito que os namorados fazem com as namoradas que demoram a se arrumar. "Que diabos, a gente tá nessa juntos ou não, porra?Vai ficar aí me olhando me matar aqui nesse muro?", sentiu vontade de falar. Mas simplesmente não conseguiu. Ao invés disso, segurou-se com muita força, tentando ignorar a dor que sentia, e subiu suas pernas. A fonte da dor parou, pois agora seu corpo todo estava em cima do muro, mas sua situação ainda era crítica. Olhando de cima, a calçada parecia muito, muito distante. Não que sentisse medo, antes fosse, pois conhecia o medo, entendia-o. Não se importaria de cair, se machucar. Apenas não sabia como descer dali. Se soubesse, poderia quebrar os dois braços, que o faria. Mas simplesmente estava paralisada, impotente.
Flávio viu pessoas passando na rua. Não entendia por que Lúcia demorava tanto a descer. Não entendia por que ela estava deitada no muro. Não entendia o olhar que lhe lançava. Não entendia que simplesmente devia ir lá ajudá-la. Mas entendeu muito bem quando viu um carro da polícia aparecendo, e entendeu que o melhor a fazer para salvar sua própria pele seria pisar no acelerador e arrancar.
A irritação - muito mais do que o desespero - tomou conta de Lúcia. Seu namorado idiota fora embora, lhe deixara ali, e a polícia estava gritando com ela. Imaginava se estavam tendo uma bela visão de sua bunda erguida para o alto. Eles pediam que ela descesse, o que quase a fez gritar. Se ela soubesse como fazer isso, já estaria longe dali. Respirou fundo, aceitou o fato que não sabia realmente como descer sozinha, e pediu ao policial que tentava "negociar" sua rendição se aproximasse.
- Eu... preciso de ajuda pra descer.
A essa altura, a rua estava tomada por curiosos. Lúcia, a bela moça que saía todas as manhãs pra correr com seu cachorro, os fazia admirarem-se de modo escandaloso - como só os vizinhos conseguem - com a descoberta de que ela era a ladra que andava assaltando as residências daquele bairro tão distinto.
O policial riu da situação da moça.
- Fala sério? Você não consegue pular o muro?
Vermelha, ela nem respondeu. Ele segurou em sua cintura, puxou-a para si, e colocou-a de pé.
- Você está presa em flagrante por roubo, atleta.

- E foi assim que eu fui presa, e virei uma piada.
Lúcia diria que aquelas primeiras semanas que passara na cadeia haviam sido o inferno, se acreditasse nele. Sua vida até então cercada por riqueza, festas, aventuras noturnas e luxúria se transformara no pior dos pesadelos. O lugar era sujo, superlotado, fedido, e emanava a abusos sexuais; nenhum homem com quem dormira fora tão ávido quanto qualquer uma daquelas mulheres enjauladas, carentes e à beira da insanidade. Não sabia o que era pior em suas colegas de cela: a abstinência de drogas, que as tornava loucas, ou a abstinência de homens, que as tornava loucas e famintas.
Marta era até gente boa com ela. A escutava, contava algumas coisas sobre o "sistema", e era carinhosa. Claro que pedia favores em troca, mas isso não era algo exclusivo da prisão; Lúcia sabia que era uma prática comum no mundo todo, em todas as relações, comerciais ou emocionais. Ali era apenas mais claro, transparente.
Eram em três em sua cela; além de Marta, Paola, uma negra de aparência erroneamente frágil, também dividia o espaço apertado. Viviam pacificamente, dentro dos limites humanamente possíveis. Paola era companheira de Marta, mas procurava esconder o ciúme quando via a namorada com a nova prisioneira. Sua animosidade, porém, era visível sob a gentileza forçada. Quando Lúcia perguntou a Marta como deveria se comportar com relação a Paola, essa respondeu simplesmente:
- Respeite quando eu e ela estamos juntas. Apenas isso.
Flávio fora visitá-la uma vez, logo na primeira semana. A reação agressiva ("animal", como ele definiu mentalmente) de Lúcia afastara-o por completo. Eventualmente ela recebia a visita de umas poucas amigas fiéis e temerosas; seu pai era o único que ia vê-la toda a semana. Parecia ter envelhecido dez anos nos dias que se seguiram à descoberta da vida que a filha levava, e pareciam ser mais dez a cada visita à prisão. Definhava a olhos vistos. Nem a perda precoce da mãe de Lúcia abalara-o tanto. A garota enternecia-se dele, mas sabia que não havia nada que pudesse fazer para ajudá-lo. Ela era quem mais precisava de ajuda naquele momento.
Uma noite depois do dia de visitas, Marta acordou-a, colocando a mão em sua perna e apertando, como era seu costume. Sonolenta, mas ciente do que a amiga queria, Lúcia colocou a mão em sua nuca. Marta, porém, afastou-a, e sussurrou em seu ouvido:
- Quer fugir?
Lúcia sentiu a familiar sensação de todos os pêlos do seu corpo se eriçando. Sim, seu coração respondeu. Se fosse pra morrer naquele lugar, que pudesse ao menos sentir novamente toda a emoção, toda a adrenalina do perigo.
- Quero.
Muito mais do que a liberdade, ansiava por se sentir viva de novo, sair daquele marasmo que sua vida aventureira de repente se tornara.
- Muito bem, então levanta e me segue. Minha irmã me trouxe uma arma e conseguiu fazer uma cópia da chave do cadeado da nossa cela; vem atrás de mim, e não faz nenhuma besteira.
Obediente, Lúcia empreendeu pela primeira vez uma fuga seguindo outra pessoa; dessa vez, não estava no comando. Era desconfortável, mas era muito mais do que já tivera desde que fôra pega.
Paola já estava acordada. Parecia mais descontente do que de costume com a presença de Lúcia. Claramente, sua ideia era fugir com Marta e largar a outra, a que se intrometera em sua relação, com a cela inteirinha para si.
Milagrosamente, a chave que a irmã de Marta trouxera abriu a cela.
- Agora anda, você que manja de sistemas de segurança, pode dar um jeito nisso?
Marta indicou uma câmera que vigiava o corredor. Lúcia entendeu o que tinha que fazer. Primeiro, precisava de sorte: as câmeras faziam parte de um rodízio na televisão da guarda responsável. Os corredores não eram vistos todos ao mesmo tempo, tinha certeza. Só precisava mexer na câmera quando ninguém estivesse olhando.
Marta olhava-a, esperando para ver as maravilhas que ela tanto se vangloriava de saber fazer. Viu a garota respirar fundo, e rezou pra que não fizesse nenhuma besteira, senão teria que ficar mais cinco anos naquele lugar. Estava tudo nas lindas e talentosas mãos de sua nova namoradinha. Talvez, lá fora, até trocasse Paola definitivamente pra ficar com a loirinha mimada, se essa conseguisse dar um jeito na câmera. Mas só talvez.
Sob o olhar atento de todas as presas naquele corredor, Lúcia fez a coisa mais imprudente em toda sua vida de criminosa: saiu da cela (e seu corpo todo entrou ficou tenso quando fez isso, pois sabia do risco que estava correndo se justamente essa câmera estivesse na televisão da guarda) carregando uma camiseta preta um banquinho; subiu nele e chegou seu rosto perto da câmera. Colocou o pano preto em cima e disse à Marta:
- Tudo liberado.
Explodindo com a estupidez da garota, Marta gritou, ou teria gritado, se não estivesse no meio de uma fuga:
- Você tá louca? Não consegue desligar o sistema, paralisar as câmeras, o caralho à quatro?
- Conseguir eu consigo, mas estamos com pressa, e até a guarda descobrir que isso é um pano, e não um defeito na câmera, a gente já conseguiu escapar.
Marta, contrafeita, sorriu com o canto da boca: a menina era prática. Agora, precisavam fugir. Rapidamente abriu as outras celas do corredor com a chave mestra que sua irmã conseguira, e logo havia um aglomerado de cerca de dezoito mulheres prontas para a liberdade.
Claramente, quem comandava a operação era Marta. Ela seguia na frente, averiguando se estava tudo seguro. Foi surpreendida por uma guarda na bifurcação do seu corredor, e sem hesitar meteu-lhe um tiro na testa, derrubando-a instantaneamente. As presas passaram pelo corpo inerte sem ao menos pestanejar. Lúcia não foi diferente. O pensamento mais próximo de piedade que teve foi ao constatar quanto sangue saía da cabeça da mulher, era realmente impressionante, para uma arma tão pequena.
Seguiram em frente, silenciosas e ofegantes. Marta sempre na vanguarda, matando qualquer guarda que aparecesse pelo caminho. Recarregou a arma mais três vezes até chegarem na lavanderia, por onde sairiam. O silenciador da arma as levara até ali sem serem percebidas, agora faltava chegarem ao lado de fora do prédio, então saria cada uma por si.
A "comandante" foi a passos trôpegos até a porta da lavanderia, apenas para constatar que estava trancada. Marta então ergueu a arma, pronta a dar uma coronhada na fechadura, quando todas ouviram:
- Paradas, senão eu atiro.
Uma maldita guarda estava apontando uma arma pra cabeça de Marta. As fugitivas estavam em vantagem numérica, mas não ousariam se mexer e arriscar o pescoço de sua líder e os seus próprios. Estavam encurraladas, acabara. A guarda estava puxando o walkie tock do bolso, para pedir reforços, quando Lúcia sentiu um frenesi ao sofrer um surto de adrenalina em sua corrente sanguínea. Ah, como ela gostava daquilo!
Chutou com força a arma na mão da guarda. Essa disparou e acertou no teto, fazendo um barulho ensurdecedor. Lúcia deu-lhe um soco no rosto, com força quase sobrenatural, derrubando-a.
Sem pensar duas vezes, Marta arrombou a porta e correu para fora, sendo seguida por dezesseis prisioneiras estupefatas e uma novata que parecia correr mais do que todo mundo. Atravessaram o pátio entre a porta e o grande paredão que as separava da rodovia sentindo o vento no rosto com uma intensidade que nunca haviam sentido na vida.
Uma a uma, as prisioneiras escalavam o paredão, pulavam com destreza a cerca elétrica e se jogavam de qualquer jeito do outro lado. Todas já estavam do outro lado, menos Marta e Lúcia, que travavam uma batalha:
- Vai logo, branquela, eu faço pézinho.
- Eu não consigo, eu não consigo... - repetia Lúcia.
- Anda logo, as guardas vão aparecer, pegar a gente!
- Vai, pode ir, Marta, eu não vou conseguir... - flashes da noite em que fôra presa relampejavam em sua mente, ameaçando enlouquecê-la. Não conseguia, simplesmente não conseguia.
A companheira fazia uma concha com as mãos, convidando Lúcia a subir. Convidando é eufemismo, ela ordenava, com sua voz autoritária:
- Anda-logo-anda-logo-anda-logo-anda-logo-anda-logo-ANDA-LOGO!- por um breve segundo, Lúcia apreceu decidir-se por subir, mas as guardas apareceram. Marta lançou um último olhar à garota, e subiu com facilidade o muro chapiscado, desviando-se dos tiros que tentanvam alvejá-la.
- Parada aí, senão atiramos!
Como se Lúcia pudesse ir a algum lugar. Apenas encostou a testa no concreto à sua frente, deixou cair uma lágrima e olhou para cima. O muro era muito alto.

domingo, 5 de junho de 2011

Muito mais o hábito, do que a necessidade, constrói uma relação.

sábado, 4 de junho de 2011


''Sou bastante ignorante, mas leio um bocado.'' (O Apanhador no Campo de Centeio)
Quando dois músicos se apaixonam, seus corações cantam; quando dois atores se amam, acham seu papel no mundo; quando dois dançarinos se envolvem, seus corpos pulsam no mesmo ritmo; mas quando acontece o raro milagre de dois escritores se encontrarem, faltam palavras pra expressar o que sentem nesse momento único.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

UMA PROVA DUPLA

Estão abertas as inscrições para o Exame Nacional do Ensino Médio, prova que, segundo divulga o MEC (Ministério da Educação) em suas propagandas, é porta de entrada para universidades. Esse ano a edição é especial, pois não representa uma prova somente aos estudantes.
É consenso entre quem já participou de edições anteriores que o ENEM é uma prova muito cansativa - são 180 questões que abrangem Ciências Humanas, da Natureza, Línguas e Matemática, e uma redação - que demanda atenção e dedicação dos candidatos. O esforço, contudo, promete ser recompensado: além de servir como vestibular em algumas universidades públicas, também possibilita o ingresso em faculdades particulares por meio de bolsas de estudo de 50% e até 100%. Pra quem almeja ser um profissional qualificado e bem remunerado futuramente, isso soa muito promissor.
O problema aparece quando se analisa as edições anteriores. Provas furtadas da gráfica, erros de impressão nos cadernos, nos gabaritos, além de toda a polêmica gerada ano passado no impasse entre cancelar a prova ou não. A idéia de imitar o vestibular unificado norte-americano é ótima, pois a padronização do processo seletivo garante sua imparcialidade e confiabilidade. Mas é necessário que exista toda uma estrutura bem organizada, responsável pela elaboração, distribuição, aplicação, correção e divulgação de gabaritos e resultados. Um exame desse porte tem potencial, inclusive, para auxiliar na tão comentada melhora da educação pública brasileira, incentivando alunos e professores a se prepararem para a prova, cujo conteúdo é (ou deveria ser) ensinado no Ensino Médio, mas que por vezes se perde sob a postura de muitos jovens brasileiros, que estão cada vez mais mergulhados em uma falta de interesse e de perspectiva desanimadoras. Essa falta de objetivos pode ser suprida com uma chance de ingressar em um curso superior; o ENEM pode ser essa oportunidade.
Os candidatos passarão os próximos meses preparando-se. Dedicarão tempo e esforço, apostarão as fichas de seus futuros nessa prova. Serão avaliados rigorosamente em seu raciocínio, conhecimento de mundo e de conteúdos de diversas áreas. O mínimo que eles merecem é um exame sério, bem aplicado, sem transtornos que voltem a abalar sua credibilidade frente às instituições de ensino.
O ENEM 2011 não é apenas uma prova aos estudantes, mas também ao MEC: ele mostrará se o governo realmente está empenhado em melhorar a educação no Brasil ou se isso faz parte apenas de mais um discurso demagógico, incansavelmente repetido. Torçamos por todos que serão avaliados nesse exame, para que façam a prova com seriedade e obtenham os melhores resultados possíveis, abrindo, assim, as portas para a educação.

domingo, 29 de maio de 2011

Cada vez mais me convenço que devemos correr atrás de nossos sonhos, pois todas as outras opções são medíocres demais para chamarmos de vida.

domingo, 8 de maio de 2011




Não é saudade, é nostalgia. Não sinto falta de ninguém, apenas de quem eu fui um dia.

sábado, 30 de abril de 2011

Olhos, Ouvidos e Garganta da Sociedade

Segunda-feira última foi marcada pelo episódio do deputado Requião, onde ele arrancou um gravador das mãos de um jornalista e, após anunciar na rede social twitter, apagou a memória do aparelho. Bastou para indignar não apenas jornalistas e organizações da área, mas todos os cidadãos que prezam pela democracia. Segundo o deputado, o jornalista estava fazendo perguntas ofensivas acerca da aposentadoria que ele recebe como ex-governador do Paraná. Ofensivo, no entanto, é um representante do povo se esquivar de prestar contas do dinheiro público que recebe e usar o termo ‘‘bullying” para justificar seus atos de intolerância para com a liberdade de imprensa.
Vivemos num país que sofreu vinte e um anos de ditadura militar e nesse período teve sua imprensa reprimida. As ideias eram filtradas pela censura e, caso consideradas contra o regime, eram vetadas. Artistas veiculavam mensagens antiditadura subliminares em músicas, intelectuais eram exilados, militantes torturados, enfim, foram anos difíceis, onde a informação, esse bem precioso da população, estava ameaçada, perseguida. Os cidadãos foram privados do direito à informação objetiva e real, uma violência contra a intelectualidade da nação. É claro que atualmente qualquer ato que sinalize, mesmo que à distância, uma repressão à livre expressão será encarado com indignação pelo povo.
A relação entre política e jornalismo é mais complicada do que sugere à primeira vista, não é uma questão que ficou pra trás na história. Existem inúmeros exemplos atuais de momentos de tensão entre os dois. Nas últimas eleições presidenciais, humoristas foram vetados de falar sobre política, impedidos de fazer piada com os candidatos (esses que nem sempre mantêm a seriedade durante a campanha, tentando garimpar votos a qualquer custo). Os profissionais atingidos, porém, manifestaram-se contra essa decisão e conseguiram revertê-la. Na Argentina, arrasta-se o caso do jornal Clarín versus a presidente Cristina Kirchner. Talvez seja uma disputa sindical, talvez não, mas fato é que em nossas sociedades ditas democráticas a tentativa de refrear a imprensa escancara o quanto ainda se precisa avançar até a plenitude do “governo do povo e para o povo”.
O veículo que informa os cidadãos sobre o mundo que os cerca, busca instigar reflexões críticas da sociedade, motivar mudanças e divulgar as conquistas, derrotas, erros, acertos e sujeiras dos chefes de Estado é a imprensa. Tentar, sob qualquer pretexto, estancá-la, é vedar os olhos, os ouvidos e a garganta da sociedade democrática.

domingo, 17 de abril de 2011


Você vai embora, e não importa o quanto eu me esforce, ou o quanto eu queira que você fique. Você vai.

domingo, 10 de abril de 2011

Violência gera Violência

O Brasil inteiro chocou-se com a chacina ocorrida no Rio de Janeiro essa semana. O mundo acompanha com ansiedade as turbulências na faixa de Gaza e no norte da África. Mas não é preciso ir tão longe para ver os efeitos da violência. Na última sexta feira, dia 08 de abril, em Nova Odessa, um rapaz foi agredido por quatro homens, um deles armado com um pedaço de pau. Ao que tudo indica, o jovem estivera roubando um dos agressores. Mas será que resolve o problema espancá-lo? Muitos podem concordar com a atitude dos agressores, argumentando que o rapaz fez algo para merecer isso. Mas não é muito mais útil servir-se dos meios legais para puni-lo? Indo um pouco além, não seria uma solução muito mais eficaz e ética para esse problema um programa real de habilitação em penitenciárias? Muitos criminosos não têm solução, mas o que motiva atos violentos pode ter inúmeros fatores, é estupidez generalizar. Alguns podem, sim, se regenerar, e ao voltar para as ruas, passarem a ter uma vida dentro da Lei, não representando mais um perigo para a sociedade. Mas como um indivíduo que teve sua vida marcada pela violência, tornou-se um criminoso, passou anos sendo moldado na cadeia, sai da prisão? Com certeza, muito mais perigoso do que entrou. Enche-se a boca para falar que se gasta muito mais com os presos no Brasil do que com os estudantes. Na verdade, se gasta pouco com os dois. Os estudantes são o futuro do país e investir neles, é investir no Brasil de amanhã. Já os presos são um problema que, se ignorado, se agravará, trazendo consequências desastrosas para todos nós. Aos trabalhadores, estudantes, pais, mães, filhos, não está ao alcance planejar e executar nenhum plano de reabilitação: isso é dever do Estado, que parece realmente acreditar que lotar celas com criminosos é o caminho para a tão almejada paz. Mas está sim, perto de nossas mãos, contribuir dentro de nosso contexto para a proliferação da paz, e não da violência. Somos vítimas dela, e não a usemos como arma. Isso não soluciona, apenas serve de descarga emocional e gera mais violência.

quarta-feira, 23 de março de 2011



A consfusão apresenta um fascinio tão grande, que às vezes ela se perguntava se ainda se mantinha indecisa por decisão própria.

domingo, 20 de março de 2011



Houve um tempo em que tudo era fácil, simples, estável. Ela sabia quem era, o que queria e pra onde estava indo. Ela sabia o que era o amor, pois ele tinha um nome de santo. Ela sabia quem estava tentando se tornar, e porque. Ela seguia em frente, sem jamais deixar de voltar pra casa no fim do dia. Mas tudo acabou, e ela enxergou a vida real. Viu que nada é feito pra durar, e as certezas são as maiores ilusões que alguém pode ter. Ela tem que se descobrir a cada despertar, e rever seus conceitos antes do fim de cada dia. Não há porto seguro, não há um lugar só seu, não há mais nada, apenas a estrada. Ela abriu mão de tudo, menos da fé e do amor, que ela tem que renovar, reinventar todo o dia. Ela não sabe quem é, por que quando descobre, já mudou. Ela está perdida, não por não conseguir se encontrar, mas por que está sempre em movimento.

terça-feira, 8 de março de 2011

Não deixe que sua chama se apague com a indiferença. Nos pântanos desesperançados do ainda não, do agora não. Não permita que o herói na sua alma padeça frustrado e solitário com a vida que ele merecia, mas nunca foi capaz de alcançar. Podemos alcançar o mundo que desejamos. Ele existe. É real. E é seu.
- One tree Hill

segunda-feira, 7 de março de 2011



Quando eu fui para a escola, perguntaram-me o que eu queria ser quando crescesse. Eu escrevi “feliz”. Eles disseram-me que eu não entendi a pergunta, e eu disse-lhes que eles não entendiam a vida.
- John Lennon

(créditos da imagem para @igorgava)

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011


Loucura é enxergar todos os pontos dissonantes, tantos e grandes, e ainda ver os pontos analógicos, pequenos em si mesmos, como mais importantes. Ou é outro o nome disso?

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Banalização do tal amor



Tanta gente reclamando do ''banalização do amor": "Eu te amo agora virou bom dia", "Ninguém mais dá valor a nada mesmo"...
Antes banalizar o "eu te amo", e dizer isso pra todo mundo, do que fazer isso com o "vá se foder".
Pior do que fingir que ama, é simplesmente não conseguir se importar.
Tanta indignação com uma frase, como se o amor fosse só isso.
TSI

Querido John


“Fizeram a gente acreditar que amor mesmo, amor pra valer, só acontece uma vez, geralmente antes dos 30 anos. Não contaram pra nós que amor não é acionado, nem chega com hora marcada. Fizeram a gente acreditar que cada um de nós é a metade de uma laranja, e que a vida só ganha sentido quando encontramos a outra metade. Não contaram que já nascemos inteiros, que ninguém em nossa vida merece carregar nas costas a responsabilidade de completar o que nos falta: a gente cresce através da gente mesmo. Se estivermos em boa companhia, é só mais agradável. Fizeram a gente acreditar numa fórmula chamada “dois em um”: duas pessoas pensando igual, agindo igual, que era isso que funcionava. Não nos contaram que isso tem nome: anulação. Que só sendo indivíduos com personalidade própria é que poderemos ter uma relação saudável. Fizeram a gente acreditar que casamento é obrigatório e que desejos fora de hora devem ser reprimidos. Fizeram a gente acreditar que os bonitos e magros são mais amados, que os que transam pouco são caretas, que os que transam muito não são confiáveis, e que sempre haverá um chinelo velho para um pé torto. Só não disseram que existe muito mais cabeça torta do que pé torto. Fizeram a gente acreditar que só há uma fórmula de ser feliz, a mesma para todos, e os que escapam dela estão condenados à marginalidade. Não nos contaram que estas fórmulas dão errado, frustram as pessoas, são alienantes, e que podemos tentar outras alternativas. Ah, também não contaram que ninguém vai contar isso tudo pra gente. Cada um vai ter que descobrir sozinho. E aí, quando você estiver muito apaixonado por você mesmo, vai poder ser muito feliz e se apaixonar por alguém.” – John Lennon.

MEU PAPEL


Não espero alguém que me entenda, aceite e me ame como sou. Esse é o meu papel.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

http://www.youtube.com/watch?v=K2dqYhkXHWk

não há nada como olhar pro passado e saber que sobrou alguma coisa, alguma coisa que não dói e nem machuca, não é boa e nem má, é apenas saudade.

AH, O AMOR...




encontrado no TUMBLR "tudo" : http://uanderstand.tumblr.com/page/96

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Minha vontade é de dizer: ei, não confie em mim, não sei até onde eu posso ir, não me deixe te machucar, não sou uma pessoa legal, não me deixe te conquistar, não me deixe te fazer me amar. Mas só de pensar que posso estragar tudo te avisando sobre mim, eu volto atrás e finjo pra mim mesma que não sou tão ruim. E finjo que acredito. Eu simplesmente não quero te perder agora. E o agora nessa frase é o que me irrita.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Noite




A noite é a casa das perguntas.
A solidão nunca fica tão intensa quanto no ar fresco da noite.
A escuridão deixa ver a luz que durante o dia se camufla sob o sol e as pessoas.Sozinho, você e a insônia, tudo fica exposto e despido, sem pudor. É possível enxergar todo seu pecado, e traçar sem a incômoda sensação de estar sendo observado, sua estratégia.
O mundo inteiro cabe dentro do pensamento, e torna-se possível pesá-lo sob os olhos.
Os sentimentos desnudam-se, sem convenções, lugar-comum. Só eles, mais nada. Tão poucos, assim; tão fortes.
O sono alivia, livra, rompe. Dormir é abandono, é encontrar segurança no calor do sonho. É ter pesadelos e poder acordar deles.
“Viver é mais fácil com os olhos fechados.” (Jhon Lennon)
Mas aí o dia chega, e o máximo que você pode fazer é acordar, e submergir do eu onde esteve mergulhado, verdadeiro e silencioso. Desconhecido e surpreendente, mas estranhamente familiar.

Vadia

A vida é uma vadia.
Ela não é bonita como Chaplin te faz acreditar, ela não é racional e nem tem sentido.
Não tem fórmula matemática, e nem teoria que deem conta de captá-la em sua vadiagem.
Escrevam-na, cantem-na, proclamem-na, encenem-na, e tudo o mais. A minha continua sendo uma vadia.
Depois de encará-la de frente, sem máscaras, artifícios, cortinas, você verá que não estou mentindo.
A vida te faz sentir frio por dentro, seguir em frente mesmo quando não há mais motivo, escolher qual lado da encruzilhada parece mais verde e promissor. Pra sobreviver os animais suam; pra viver, os seres humanos sangram.
Tudo aquilo que faz a vida valer a pena é como ela: irracional e ridículo. Todos aqueles com quem você se importa são os motivos pelos quais você está vivo. Não se engane, você não luta a cada dia por amor próprio, você luta por ter alguém, ou pra ter.
Triste e belo é quando você simplesmente não se importa. As relações oscilam eternamente, os sentimentos são passageiros, as opiniões e impressões que os outros te causam não sobrevivem a uma fase da lua, e seu coração está sempre no vazio de si mesmo. Há nele um espaço enorme, onde ninguém se encaixa, se fixa. Ninguém pra tomá-lo como lar.
E nesse momento de aparente vácuo, ou você se embriaga de si mesmo e se enxerga no mundo ou fecha os olhos e continua vivendo, seguindo em frente, sem perguntar por que a vida é tão vadia com você.
Mas se escolher a última, não quer dizer que vá conseguir responder.

Se escolher a última, não terá sentirá a insanidade do questionamento.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Uma metáfora aí

Hoje eu descobri que todo mundo tem uma flor.
Ela fica guardada num cantinho da gente, é o nosso segredo.
A gente pode ver a flor alheia e ela pode parecer mais bonita, mais delicada, mais cheia de graça. Mas acredite, cada flor é única, e não há beleza maior do que essa, não há valor mais precioso.
Às vezes ela pode murchar, se despedaçar, ser açoitada pelo vento; às vezes a culpa é nossa, mas às vezes não. O próprio jardim ao seu redor se encarrega de maltratá-la.
E de curá-la depois.

O que mais me surpreendeu em minha descoberta foi que eu vi flores nos bueiros. E partindo disso posso tirar várias outras conclusões.
Se as flores conseguem nascer e sobreviver em meio a um ambiente tão insalubre, elas são não apenas bonitas e delicadas, elas são fortes; são mutáveis, claro, mas são duradouras como rochas.
Todo chão, por mais empedernido, é fértil o bastante pra gerar sua flor.E o jardineiro deve ter mãos de Midas pra fazê-la nascer.

Descubra a cor da sua, seu aroma; e também seus espinhos, suas pétalas caídas.
Se você não o fizer, ninguém mais o fará.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

um post encharcado de ingenuidade

Está tudo errado ou é só impressão minha?




Pessoas ainda matam e morrem por poder, glória, beleza?
Crente ou não, alguém acredita que isso tem valor em algum lugar além desse mundo? Se há vida após a morte, reencarnação, paraíso, inferno... Meditar sobre isso faz sentido quando ainda existe a fome? A metafísica vai salvar alguma vida?
Querer dominar o mundo é para os fracos, os fortes querem melhorá-lo.
E os perdidos, como eu, simplesmente não sabem como.
'Siga em frente' é a máxima popular quando um problema domina sua mente.
Sim, siga em frente e deixe o problema pra trás, vamos ver se ele não te persegue.
Eu estou perdida: não sei quem eu sou, não sei em quem confiar, não sei qual caminho seguir, não sei se consigo amar, não sei o que falar. A única coisa que eu sei é que minha vida não terá valido a pena se eu chegar ao fim e perceber que não consegui ajudar ninguém, nem uma pessoa só.

O que você faz pelo mundo?



Me ensina?

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

"Os corpos se entendem, mas as almas não" (Manuel Bandeira)

A única companhia eterna é a própria alma, brinquedo inenarrável e isolado. Lugar pluripolar e colorido, montanha russa.

Algum homem já tocou a alma de outro, se fez presente no outro ser, se fundiu num só?Esse é um desejo que palpita em todas as almas, com maior e menor intensidade, dependendo de como cada um lida com a solidão eterna que carrega.

Os corpos, caixas da alma, se fundem num só, se possuem, se multiplicam; as almas estão fadadas a morrerem estéreis. Nenhuma alma produz outra alma. Há, sim, resquícios da alma do escritor em seus livros, do compositor em suas canções, do músico em suas melodias, do pintor em seus quadros. Mas são apenas fotos da alma, escorregadia e gelada.

A alma é o que o ser tem de mais precioso e isolado.

Ninguém a vê, ninguém a toca, ninguém sente seu cheiro ou seu gosto.

Ninguém a conhece.

Mas ela nunca te abandona, sempre está ali, fria e sarcástica, te esperando com um bom dia todas as manhãs, quase perguntando como foram seus sonhos.

Como se ela não soubesse.



Encarando dessa forma, ninguém é sozinho.

Apenas as almas.






quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

o sentido não faz sentido

quem somos? de onde viemos? pra onde vamos?
qual o sentido de fazer essas perguntas?
pra onde estamos indo, afinal, é a grande pergunta.
eu vejo pessoas definhando em frente a uma máquina que não sangra, não sente dor, não ama. sim, essa máquina é uma grande pensadora, mas parem de pensar que 'penso, logo existo'. você sente, logo faz sentido existir. um ser puramente pensante não é um ser, é uma máquina, precisa, correta e entediante.
um pequeno paradoxo: o que dá sentido à vida é tudo aquilo que não faz sentido.
trocando em miúdos, a vida não faz sentido.
a fé tem razão?ela se explica, se entende, se comprova? se assim fosse, não seria crença. crença é irracional, se baseia em dar um tiro na escuridão.
o amor se entende? se explica? se comprova? "Há vários motivos para não se amar uma pessoa e um só para amá-la". é mentira, Drummond. não há motivo algum para o amor, nem justificativa, ele acontece, e só. ninguém assiste sua mãe o parindo, ele simplesmente está ali, como o universo. da mesma maneira, ele deixa de existir.
você pensa, reflite, indaga, descobre. nesse mundo, a informação está cada vez mais próxima, e consequentemente o conhecimento e a sabedoria (ou é assim que deveria ser). somos todos (ou quase todos) pessoas inteligentes, racionais, evoluídas.
porém o que nos define como seres humanos é a compaixão, o medo, o ódio, a fé, o amor, o tesão, é toda a gama de sentimentos que, por mais bem explicados e fundamentados, nunca estão verdadeiramente explicados e fundamentados.
aceite, quem tem paz de espírito é a máquina, que mesmo se tivesse espírito, não teria sentimentos.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Você é...

Você é minha queda livre. Através dela eu sinto a intensidade da força que me permite fincar os pés no chão e caminhar.
Você é minha noite. As estrelas estão no céu o tempo todo, mas apenas no escuro elas se revelam.
Você é meu lar. Não importa o quão longe eu consiga ir, o caminho de volta pra casa sempre me conduzirá a uma só direção, e eu sempre vou querer voltar.
Você é meu despertador. Sem ele eu não levantaria todos os dias.
Você é meu erro. Só isso explica que eu tente, todo o dia, te amar cada vez mais certo e melhor.
Você só não é meu tudo. Eu ainda não sei se ele é infinito.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

O Fruto

Soprava uma brisa gelada pela noite.Aconchegando-se mais dentro do casaco, Artur previu uma gripe se aproximando.No dia seguinte ele provavelmente não se levantaria da cama sem um analgésico.

Riu diante da banalidade desse pensamento; estava prestes a fazer uma coisa que mudaria o rumo de sua vida, e se preocupava em pegar uma gripe.''O homem às vezes age de maneira ridícula'', concluiu.

Já passavam das dez da noite, e mesmo assim seus passos eram lentos.Realmente, não era uma hora adeuqada para uma visita.''Mas'', pensou ele, maliciosamenet, ''não será uma visita comum''.

Ele passava em frente às casas e espiava pelas janelas. Via luzes fluorescentes e televisões ligadas no último bloco da novela das nove. Burnurinhos de vozes, risos, gritos, sussuros, garfos raspando o fundo de pratos, conversas ao telefone, crianças brincando, bebês chorando e mães cantando emprestavam aos tijolos, cimento e móveis a qualidade única e quente da palavra ''lar''.

Artur, sozinho e tremendo sob o sereno, teve o coração invadido pela cobiça.Queria uma mulher pra chamar de esposa, crianças pra chamar de filhos, uma casa pra chamar de lar.Enquanto andava, porém, seu teto eram as estrelas, e seus companheiros, o medo e a ansiedade.Às famílias, os momentos aconchegantes; a ele, as decisões difíceis.
De repente, algo mudou. Ele não soube dizer o que era, não teve tempo de raciocinar. Foi apenas uma sensação que durou pouco mais do que alguns milésimos de segundo. Então, uma sucessão de acontecimentos se entrelaçaram, como numa batida de automóveis. Não houve uma ordem cronológica, tudo apenas aconteceu, bem diante de seus olhos.
As luzes de todos os postes e casas se apagaram, e houve um momento de silêncio tão profundo que nem mesmo a respiração de Artur ousou quebrar. Paralisado, ele viu um par de olhos surgir por entre as casas e encará-lo como dois neóns. Eles eram a única luz em um raio escuro a perder de vista. E o pior: era impossível ver a quem pertenciam.
Um longo segundo se passou enquanto dois pares de olhos se fixaram um no outro, sem pestanejar. Artur pôde jurar que sentiu o aroma da própria morte emanando da escuridão que o envolvia.
Instintivamente, o rapaz colocou a mão no bolso do casaco e encontrou o objeto que ali estava. Seu mero toque pareceu reconfortante.
Uma sirene da moto do guarda noturno gelou todos os seus ossos e rompeu com a magia negra que parecia imperar ali. Por um fugaz instante, Artur achou que a polícia estava atrás dele e pensou em fugir. As luzes se acenderam todas de uma vez e dissiparam definitivamente a paralisia tangível que envolvera o tempo e seus pensamentos. O medo insano passou, revelando que os olhos fluorescente eram, afinal, apenas de um enorme gato preto em um muro, que fugiu assim que foi descoberto.
O vigilante passou a alguns metros de Artur, que ao vê-lo próximo segurou com força o objeto em seu bolso. Os dois trocaram um boa-noite e seguiram cada um o seu caminho.
Os pés de Artur o fizeram dobra uma esquina. Suas veias estavam dilatadas, e o oxigênio entrava em seus pulmões com dificuldade, como se o ar fosse feito de concreto. Já não sabia porque tremia e suava: se de medo pelos segundos loucos e aterrorizantes que vivera a pouco, ou pelos que viriam, baseados em sua própria decisão. Agira, estava muito próximo de seu destino.
Começou a filosofar sobre a existência do destino. Era ele quem ditava os acontecimentos? As decisões a serem tomadas, as encruzilhadas, o poder de escolha, isso realmente existia ou fazia parte de um mecanismo além do entendimento humano, muito mais complexo do que a origem do Universo, muito mais infinito que este? O fato de estar ali, naquela rua, naquela hora, com aquele dilema crucial na cabeça e com aquele objeto no bolso, eram consequências de seus passos ou apenas obedeciam a um fio condutor, como nas marionetes, liderado por alguém (ou alguma coisa) que realmente conhecia a verdade, o começo e o fim, a vida e a morte?
Divagando sobre essas perguntas sem respostas para fugir da questão que ele realmente tinha que solucionar, Artur passou em frente a uma igrejinha do bairro. Ele não seguia nenhuma doutrina a algum tempo, mesmo assim sentiu um impulso de entrar ali. As portas estavam abertas, e ele se sentou no último banco.
Iluminada com poucas velas, a igreja grave e austera o acolheu. Seus vitraiseram pequenos e simles, não permitindo a entrada do luar. Os bancos da assembleia, as cadeiras do padre e coroinhas e o altar eram cor de tabaco, o que aumentava o tom de seriedade. Seu tamanho era menor do que o usual até mesmo para capelas, tendo apenas duas fileiras de assentos.
Artur estava sentado an fileira da esquerda, e no ponto mais distante a ele, nos primeiros bancos da direita, encontrava-se um coral de velhinhas. Elas cantavam um hino à meia vóz, nem se deram conta da entrada de um estranho.
Ficou ali por um tempo, silenciando seu coração e preparando-se para o que iria fazer. Refletiu, sem perceber, o quanto um templo pode ser calmante à alma. Não orou - julgava não saber - e nem pensou muito. Canalizou sua concentração para o dilema que o dilacerava. Duas opções, uma escolha. Tudo se resumia a isso. Se acomodar ou agir, fugir ou lutar, se esconder ou revidar todas as pancadas que já levara.
Usar ou não o que trazia consigo e pôr um ponto final em todos os insultos e sofrimentos? Nesse momento, o que carregava pareceu pesar muito mais do que o real. Pareceu pesar toda sua decisão, todo o futuro de sua vida.
As velhas pararam de cantar e fizeram uma oração que Artur acompanhou involuntariamente:
- Ave-Maria, cheia de graça... - o som da prece foi enchendo as paredes, o teto, o ar, num só ritmo: o dos corações unidos na fé. - Bendito é o fruto do vosso ventre... - os olhos de Artur se encheram de lágrimas. Havia tomado sua decisão. - Rogai por nós, pecadores, agora e na hora de nossa morte. Amém!
As palavras ainda ressoavam no peito do rapaz, dilacerando sua alma com o poder que tinham enquanto ele saía da igreja, pensando que aquele lugar era, no fim das contas, muito fúnebre. Em seu rosto, emtampava-se um sorriso onde se lia alívio e determinação.
Caminhou mais algumas quadras e entrou em um quintal por um portão baixo. Parou em frente a porta azul escura. Sua cor intensa só era quebrada por um olho mágico à altura de sua testa. Tocou a campainha que ficava no canto esquerdo e esperou, enquanto um momento tenso se passava atrás da madeira.
Foi recebido pelo rosto mais lindo do mundo, que estava assustado. A dona vestia um roupão rosa claro e o indagava, com seus olhos pequenos e cheios de vida, se ele estava louco. Artur reparou que a barriga parecia inocente demais sob o robe felpudo, e seu coração sorriu ao se lembrar do que tinha lá dentro.
- Entre. - disse ela, dando-lhe passagem.
- Com licença. - pediu ele, surpreso com a segurança em sua própria voz.
Adentrou calmamente na sala e desejou uma boa noite aos que estavam ali. A mulher no sofá o respondeu, o homem na poltrona não. Nem sequer desviou os olhos do aparelho de TV.
_ Sente. - ofereceu a mulher.
Ligeiramente encabulado, ele se sentou no sofá de couro marrom. O calor no ambiente pareceu aumentar durante o desagradável silêncio que se seguiu, muito pior do que os silêncio de frente aos olhos do gato, quando Artur achou que morreria. Na verdade, o calor era seu rosto ruborizando-se, mas ele não percebeu. Ao contrário, dirigiu a palavra ao homem sentado na poltrona:
- Prometo ser rápido e não tomar muito seu tempo, senhor. - a única voz que o respondeu foi da personagem do filme. "Precisamos encontrar a saída, Alfred!" - Eu sei que já é tarde, e peço desculpas por isso, mas creio que, mesmo se a hora fosse adequada, eu não seria bem-vindo aqui. - respirou fundo e soltou todas as injustiças que fora obrigado a ouvir, erguendo ligeiramente a voz. - a julgar pelos insultos, injúrias, desfeitas e pirraças que o senhor já me deu, de graça, acredito conhecer sua opinião sobre mim. Mas esse é o momento pra lhe mostrarquem eu realmente sou. - o rapaz se levantou e o homem desviou os olhos do aparelho, imitando-o. A moça de robe pensou que Autur parecia ter crescido uns cinco centímetros apenas com sua bravura. - Vou lhe provar meu valor. Não sou o merda, o vagabundo sem ambição que você cansou de repetir que eu era, aos berros na porta dessa mesma casa. Não sou nada disso, e vou lhe mostrar que posso não ter dinheiro, sorte e nem nada disso, mas tenho uma coisa que você nunca teve: coragem. Chega! Não vou mais me sujeitar aos seus caprichos.
Sacou do paletó o objeto que o libertaria da tirania do velho - que, a propósito, estava roxo de raiva - e o revelou a todos. A boca das duas mulheres formou um "O" quando viram o que era. Os olhos de todos arregalaram-se. "O que ele pretende fazer com isso?", pensou a mãe da moça, segurando com força no sofá. O objeto reluziu rapidamente antes que Artur dissesse, suave mas decididamente:
- Renata, quer se casar comigo?

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

INVASÃO DA INVENÇÃO

Há muito tempo atrás houve uma invasão. Muito mais sutil do que a dos bárbaros, e muito mais terrível também.
A Terra sofreu uma invasão alienígena.
Eles, os ET's, observavam o nosso planeta já a algum tempo, e viram que os homens organizavam suas atividades - levantar, trabalhar, comer, se divertir, dormir - através dos ritmos da natureza, levando em conta o nascer e o pôr-do-sol, os períodos de chuva e estiagem, os movimentos da Lua.
Esses alienígenas tinham, como todo alienígena que se preze, tecnologia superdesenvolvida, e a princípio acharam graça em como os homens sujeitavam-se a coisas tão rústicas e nem sempre estáveis. Calcularam, então, que seria interessante brincar com os habitantes daquele pequeno planeta azul, presenteando-os com um de seus inventos mais banais.
Ao contrário dos lombardos, visigodos e anglo-saxões, ninguém percebeu quando essa tecnologia foi discretamente introduzida aqui. Pareceu a todos que fôra um objeto inventado num momento de inspiração, um incrível aperfeiçoamento dos protótipos já existentes. Ninguém percebeu que os mecanismos envolvidos ali era terrivelmente precisos para serem de origem humana. E nem o quanto ele era perigoso.
Sim, pois o intento alenígena era, além de se divertir às custas do pequeno mundo, dominá-lo de alguma forma. Mas sem que os terráquios se dessem conta, já que era muito atraente observá-los séculos a fio, como formigas ocupadas demais em seus afazeres pra se darem conta de qualquer coisa além de sua colônia.
O invento extraterrestre atingiu seu objetivo. Primeiramente foi visto com desconfiança pelo povo europeu da Idade Média, mas sua precisão rítmica logo encantou capitalistas e assalariados, que passaram a dividir seu dia buscando dedicar mais tempo às atividades mais rentáveis, a estabelecer o preço dos produtos de acordo com quanto tempo ele levava pra ser feito, e inclusive a designar cada hora de trabalho com um valor pecuniário específico, de acordo com a "máquina".
Na Idade Moderna e na Contemporânea, esse invento ganhou cada vez mais imoirtância. Tornou-se belo, caro, de ouro, digital e acoplado a outras tecnologias. Foi através dele que os momentos inexplicáveis, únicos em sua breve existência, passaram a ser valorizados a partir de sua quantidade, e não de sua intensidade.
Acessório indispensável na vida do homem atual e motivo de chacota aos verdadeiros criadores, que prenderam todo um planeta às ordens ditadas a partir do primeiro irritante tiquetaquear ouvido.
Essa é a verdadeira história dos relógios.