Uma coisa que sempre vinha na minha cabeça quando eu ainda era apenas uma pupila era uma teoria sobre o céu à noite.Eu ainda nem sabia o que era uma teoria, mas tinha consciência do quanto aquilo não tinha nenhuma base real, só minha idéia baseada na observação.Enfim, quando eu olhava para o céu pensava na Terra, toda redondinha, com aquela magia que deixa pessoas de pesos diferentes grudadas nela, mesmo de ponta cabeça. E todo mundo achando que estava no sentido certo.
Eu via a Terra na minha mente, e olhava pro céu, e me parecia totalmente possível que houvesse um manto azul marinho cobrindo a gente, sufocando. E que esse pano tivesse ficado todo velho e furadinho.E por trás desse pano, havia um outro mundo, de verdade, todo luz e beleza. Sem noite. Sem escuro pra esconder os monstros dos filmes que meu pai assistia. Sem pesadelos.
Era um pensamento meio clautrofóbico.Me dava uma vontade danada de esticar a mão até um dos furos e rasgá-lo.Disso, vinha uma curiosidade de como era o mundo além do pano.
Eu cresci. Talvez não muito em tamanho.Mas um pouco na cabeça. Hoje eu aceito as estrelas como possíveis luzes-defunto. Apesar de ainda conseguir ver o ''manto'' de vez em quando, se eu prestar a atenção, inventei uma forma de visitar esse mundo claro atrás dele. Um mundo que eu divido toda vez que conto uma das minhas histórias meio bobas e que, incrivelmente, param pra ouvir. Um mundo que eu visito à noite, sob o reflexo dos furinhos que tanto me fizeram sonhar.