quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Não tolere


A recente oficialização do casamento entre um casal barbarense, o reconhecimento da união de cerca de 90 casais no Rio de Janeiro dia 9 de dezembro e a abertura das inscrições para um casamento comunitário homoafetivo em Campinas são notícias animadoras, pois mostram que a sociedade evoluiu no que diz respeito ao fim da discriminação. Contudo, é preciso ficar atento para não adotar uma postura que encara gays e lésbicas de maneira estereotipada e, por isso mesmo, quase tão preconceituosa e ofensiva quanto a homofobia.
O reconhecimento social da homossexualidade não representa nenhum favor ou tolerância. Tão instintiva quanto a heterossexualidade, essa orientação sexual felizmente conquista cada vez mais o respeito da sociedade. Nesse contexto, porém, afirmações como: “todos os gays são muito legais e simpáticos” ou “eu adoraria ter um amigo gay pois eles são mais sinceros” ou até “não tenho nada contra os gays, mas não acho certo ficarem se acariciando em público” são extremamente agressivas. Primeiramente, o caráter ou a simpatia de uma pessoa não estão ligados à sua sexualidade. Atribuir qualidades a uma pessoa só porque ela é homossexual não é um elogio, mas uma contribuição para que se pense cada vez mais nos gays como uma classe (ou casta?) diferente e com características próprias, ignorando que cada ser humano é único.
Afirmar não ter nada contra gays, mas achar errado ou mesmo pecaminoso demonstrações de carinho em público é no mínimo contraditório, e revela que a expressão “tolerância sexual” foi adotada ao pé da letra. Tolerar está mais próximo de “aguentar” do que de “respeitar”. A tolerância não é tão ruim quanto a violência (física ou moral), mas não é nem de longe aquilo que tornará a sociedade melhor.
Em um mundo tão cheio de guerras e atos de violência, cada demonstração de carinho é valiosa, cada ato de amor deve ser preservado.


sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Mata-se o criminoso, e não o crime



Os constantes ataques a policiais e civis causam medo e indignação na população. Uma mostra desse medo foi provada no último dia 12, quando uma suposta ameaça de ataque do PCC (Primeiro Comando da Capital) manteve fechadas portas de estabelecimentos comerciais em Sumaré. A indignação – justificada – faz chover críticas ao sistema carcerário brasileiro, às penas leves, às facilidades de fuga dos presídios e às “saidinhas” em datas especiais, como Natal e Dia das Mães. Esses sentimentos misturam-se no coração dos brasileiros; em resposta, muitos defendem a pena de morte como solução para o problema de segurança pública vigente.
Por definição, o Estado existe para defender os interesses dos cidadãos. Cabe a ele arcar com prejuízos para que a população tenha acesso à água, à saúde e à educação, e também criar leis e aplicá-las, visando manter a ordem social. Quando o Estado, porém, está autorizado a fazer uso da violência, instaura-se um regime ditatorial. Condenar criminosos à pena de morte não está dentro daquilo que é chamado de defesa do povo; agindo assim, todos – criminosos e inocentes – estarão correndo risco de vida, pois o julgamento do Estado é passível de erro. E mesmo que julgue acertadamente, ele estará cometendo uma contradição contra sua própria essência, que é a de proteger, e não de matar.
É fácil afirmar isso quando não se perdeu nenhum parente, amigo ou conhecido para as mãos do crime. É cada vez mais difícil acreditar que existirá um dia em que o sistema penitenciário estará voltado para recuperação dos presos, e que o Estado cumprirá de maneira efetiva sua função primordial de defender a vida, ainda mais quando o medo e a indignação se misturam, dando forma a um senso de justiça que beira a vingança. Mas é preciso acreditar que a vida é inviolável, e que a justiça não se baseia no Código de Hamurabi – que pregava a máxima “olho por olho, dente por dente, carne por carne”. É preciso ter a consciência de que violência não se resolve com balas, mas com ideias aplicadas. Matar um assassino não trará as vítimas de volta e nem tanto acabará com a violência. É possível matar o criminoso, mas não o crime. Este é preciso resolver com medidas reais, compromissadas com a dignidade humana.

domingo, 28 de outubro de 2012

Honestidade não tem tamanho



O ciclista Lance Armstrong foi banido do esporte por fazer uso de doping. O atleta também perdeu muitos prêmios, incluindo o heptacampeonato da Volta da França. As substâncias utilizadas por ele favoreceram-no nas competições, tornando as disputas desiguais. Descoberta a fraude, tudo que ele havia “conseguido” foi considerado fruto dessa trapaça, que não é exclusiva do esporte. É possível encontrar diferentes dopings na sociedade. No ar fica a questão: vale a pena burlar as regras em busca da vitória?
Armstrong não foi o primeiro e (infelizmente) não será o último a fazer uso de substâncias ilícitas para se sobressair dos demais atletas em uma competição. Tentar tirar vantagem, descumprir o regulamento, mentir e dissimular para alcançar um objetivo não são pecados cometidos somente no esporte, mas também na vida. É também um doping colar na prova, prejudicar um colega de empresa para lhe tomar o cargo e se apropriar do dinheiro público para enriquecimento ilícito.
Descoberta as fraudes, o que resta a Armstrong é a vergonha; mas mesmo que o doping tivesse ficado oculto, a vitória nunca seria dele; seria da substância que o fez mais resistente. Da mesma maneira, quando alguém enriquece, ou ganha prestígio, ou apenas cumpre uma obrigação lançando mão de artifícios fraudulentos, conquista apenas a parte material da vitória. O sentimento de superação, a satisfação verdadeira de ter vencido com o próprio suor não existe; ao contrário, o que há é a impressão de que, sozinho, nada teria sido feito. Quem opta pela vantagem desonesta assume sua própria incapacidade.
Numa sociedade em que o lucro é mais importante do que os valores, não é de se estranhar que o doping aconteça, seja em uma competição internacional, uma licitação pública ou em uma prova escolar. Cada situação tem diferentes pesos e importâncias, mas a honestidade cabe bem em qualquer lugar.



domingo, 14 de outubro de 2012

A história e a alegoria

''Era uma vez uma garota que encontrou um dragão. Era um dragão simpático e boa-praça, que começou a acompanhá-la por todos os lugares onde a garota ia. Ele era uma ótima companhia, pois sempre que ela se sentia entediada, podia simplesmente olhar pra ele que ambos caíam na risada. Os dois se tornaram grandes amigos, dividindo confidências e reflexões a respeito da vida, do universo e tudo o mais. Não que as pessoas não percebessem que a garota não desgrudava do dragão (era meio difícil não perceber), mas simplesmente ignoravam, rotulando-a, com seus botões, como uma garota meio esquisitinha. Sabe, tudo bem você gostar de um dragão, mas, por favor, não ande com ele para cima e para baixo se quiser ser respeitada!!
Até que um dia, acabou. O dragão se despediu. Foi lançar fogo em outro condado. Mandou um salve final à garota, que ficou, dali em diante, fascinada com dragões. O que não a impediu de puxar papo com aquele centauro que...''

Tudo bem se você quiser pensar que essa historinha é uma alegoria sobre livros; ou sobre relacionamentos; ou sobre segregação; ou sobre a relação do consciente com o inconsciente. Mas tudo bem também se você achar que é simplesmente sobre uma garota que encontrou um dragão. 

Nada contra alegorias, acho um recurso muito bom na mão de quem sabe usar.
Mas o que eu amo são as histórias.

''Quanto a qualquer significado oculto ou 'mensagem', na intenção do autor estes não existem.
O livro não é nem alegórico e nem se refere a fatos contemporâneos'  (J.R.R. Tolkien)

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Viver e não ter a vergonha de ser feliz



Segundo a sabedoria popular, toda criança passa pela fase do “porquê”. Nessa pergunta exaustivamente repetida, a criança quer saber não apenas o motivo das coisas que acontecem ao seu redor, mas a maneira, o funcionamento e os segredos que tudo parece esconder. O mundo, para os pequenos, é uma caixinha de surpresas. Tudo os fascina e intriga, tudo é um grande mistério.
Um mesmo lugar visto quando se é criança e quando já se é adulto muda de “tamanho”, pois na perspectiva da criança, tudo é enorme. Da mesma maneira, quase todas as crianças acham o máximo ser gente grande, pois quem é mais velho é muito poderoso: poder sair a noite sem os pais, poder brincar em todos os brinquedos do parque, poder ir dormir tarde, poder comer o que quiser, poder trabalhar pra comprar grandes e maravilhosos doces, enfim, é tanto poder que eles mal concebem.
Mas aí elas crescem e passam a escutar os pais, sempre dizendo que é preciso ter responsabilidades. Elas começam a entender que se ficarem brincando ao invés de estudar para a prova terão uma nota ruim. Elas percebem que se comerem todos os doces que queiram não vão almoçar direito e ficarão com fome mais tarde. Elas finalmente entendem que sim, apesar de brincar ser muito legal, elas precisam dormir na hora certa pra poder acordar na hora certa no dia seguinte. Enxergar tudo isso faz bem para as crianças. Uma hora ou outra a vida perde a brilhantina que as atordoava quando pequenas, e isso é bom, pois é de conhecimento de todos que é preciso estar com os pés bem fincados no chão para ter sucesso na vida e ser bem sucedido.
Só não se pode esquecer que as conquistas de adulto devem ser comemoradas com o mesmo espírito infantil. Afinal, todas as obrigações que acompanham a vida adulta não farão nenhum sentido se o amor pelas pequenas coisas for deixando de lado. 

Os diferentes grilhões



A ativista paquistanesa Malala Yousafzai de apenas 14 anos foi baleada dia 11 de outubro. O braço fundamentalista islâmico Taleban assumiu a autoria do ataque e deixou bem claro: a atitude foi uma repreensão à postura de Yousafzai, que defende a educação de meninas.
A jovem recebeu em 2011 o Prêmio Nacional da Paz por sua defesa do direito das garotas de frequentarem a escola, prática considerada ofensiva pelo grupo Taleban. A concepção do Taleban soa ridícula, fruto de um pensamento machista dominante. É condenável a violência cometida contra Yousafzai.
Porém quase tão absurdo quanto não deixar as garotas estudarem é tratar as mulheres como objetos, é alimentar o complexo do príncipe encantado, é fazer delas escravas de um padrão de magreza.
Aqui no Brasil, cada menina tem o direito de frequentar a escola. Mas cada menina também é condicionada a acreditar que existe algum homem especialmente reservado pra ela, e apenas em seus braços ela encontrará a verdadeira felicidade e sua realização como mulher.  Cada menina também cresce recebendo estímulos para respeitar o padrão magreza de beleza, acreditando que ser gorda é algo do qual ela precisa fugir se quiser ser amada pelo tão sonhado príncipe.
A violência contra o sexo feminino não é uma marca exclusiva do fundamentalismo islâmico. A ativista Malala Yousafzai ergueu sua voz para reclamar seu acesso ao conhecimento, mas expresso aqui meu desejo de que as mulheres que já têm acesso a esse precioso bem o utilizem pra se libertar das amarras do machismo, reconhecendo-se como seres completos e independentes.


quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Presidente do Sindicato das Águas fala sobre a greve do setor


Já dura dois meses a greve das chuvas na região da RMC (Região Metropolitana de Campinas). Em entrevista concedida ontem, o presidente do Sindicato das Águas afirmou que a liberação das nuvens para precipitação só ocorrerá depois de um acordo com as autoridades responsáveis pelo consumo consciente da água; ou seja, todos. O sindicato lembrou, ainda, que entre reivindicações está principalmente o investimento por parte do poder público no departamento de distribuição.

Os já costumeiros períodos de seca se agravaram, segundo ele, por conta do descaso geral das autoridades para com a situação da classe das águas. Questionado sobre os problemas que a paralisação causa na vida dos moradores, o sindicato reconheceu que a situação é crítica: prejuízos financeiros são contabilizados e a saúde da população está sendo prejudicada. Em consequência, os hospitais e postos ficam lotados, e, como em efeito dominó, a precariedade do sistema de saúde é escancarada.

Ainda de acordo com o presidente, a greve visa também tornar a população uma aliada do sindicato; ou seja, fazer valer a já disseminada necessidade de preservação da água, que todos conhecem, mas quase ninguém cumpre. Ele não esquece, porém, que é de extrema importância o investimento real no setor; afinal, a água é um bem básico para a vida. O poder público deve estar preparado para suprir essa necessidade, mesmo nos períodos de estiagem.

O presidente do Sindicato das Águas terminou a entrevista dando um panorama nacional sobre a situação da classe trabalhadora. “Se os governos em geral não estão preparados para suprir a necessidade básica da população de beber água, como se pode esperar que estejam aptos a lidar com outras greves, como a dos Correios e dos Bancos?”.